Desfragmentando PH


Por Onde Andei - Dublin e Amsterdã

Só sei que iríamos visitar o meu irmão, que partiu à Dublin no meio deste ano. Com a sorte de estar num país que ainda não assumira a recessão, Victor, meu irmão, conseguiu ser um dos últimos a ainda gozar do programa “Ciência sem Fronteira”, indo estudar por um ano na prestigiosa universidade Trinity, em Dublin.

Mesmo estando com corações apertados de saudade, ao menos pudemos utilizar a partida do Victor como desculpa para irmos ao seu encontro na Europa. Assim, compramos as passagens a Dublin, com o bônus de podermos passar uns dias em Amsterdã, a outra cidade que eu havia escolhido para conhecer.

Em 25 de outubro de 2015, num dia quente e engarrafado, eu, minha mãe e meu pai fomos ao aeroporto e embarcamos em direção a Amsterdã.

*

Amsterdã é uma cidade pequena e encantadora. Como os pontos turísticos principais ficavam relativamente próximos ao centro, pudemos fazer tudo o que queríamos sem (muita) pressa. Já no Brasil eu havia feito minhas pesquisas sobre os museus, praças e pontos que desejava ir, fazendo um cronograma bastante rígido, o que provocou o meu pai a me apelidar de “General” diante de tamanha organização militar.

Contudo, como as atrações eram perto uma da outra, acabamos deixando de lado os bondes e gastando as nossas solas de sapato em andanças intermináveis pelos lindos canais de Amsterdã. Ficávamos encantados com aquela beleza que a cada esquina nos surpreendia. As pessoas eram todas belíssimas, com seus casacos caros, sorrisos brancos e olhos quase transparentes de tão claros. Pareciam, também, simpáticas e educadas, embora considere que muitos carregavam uma polidez fria e superficial, principalmente quando descobriam que éramos brasileiros.

O ar das ruas da cidade tinha um odor doce, o que me fazia lembrar os stroopwaffles, os wafer recheados de caramelo que vendiam a cada esquina.

Os únicos "estresses" - por incrível que pareça - eram as bicicletas e o cheiro forte de maconha. Por ser um país onde o uso da maconha era lícito, era constante o odor enjoativo da erva seja na rua, seja numa pessoa que passava pela gente de repente no restaurante.

Já as bicicletas eram um caso à parte. Os ciclistas pareciam possuir mais direitos que pedestres, de modo que não respeitavam a sinalização como deviam e costumavam correr de modo alucinado na ciclovia, ainda que para tanto tivessem que quase atropelar transeuntes. Isso me irritava, uma vez que, ao atravessar uma via pública, tinha de prestar atenção nos carros, motos, bondes, ônibus e... nas benditas bicicletas!

Claro que nada disso atrapalhava a sensação constante de que eu estava numa das cidades mais bonitas do mundo. Às vezes, inclusive, me pegava imaginando morar ali, naquelas casas lindas, padronizadas, de cores sóbrias, em frente aos canais.

*

Os museus de Amsterdã são inúmeros e lindos. Fui ao Rijksmuseum, Van Gogh, Diamantes, Nacional de Amsterdã, Our Lord in the Attic, Anne Frank, Rembrandt, entre outros. Cada qual com uma abordagem inovadora e interessante.

Na Casa de Anne Frank, por exemplo, fiquei maravilhado com os documentos, a reconstrução do local, as informações e os vídeos que exibiam depoimentos daqueles que conviveram com Anne. Em especial, o vídeo em que o pai dela relata a sua reação ao encontrar o diário de sua filha morta é particularmente emocionante.

Já no Museu Nacional de Amsterdã, a interação com o público é algo a ser copiado em todo o mundo. No começo da exposição, se ganha um panfleto com um código de barras correspondente a língua do seu país. Assim, ao longo do percurso do museu, os turistas passam os códigos de barras nas luzes vermelhas que piscam e, assim, podem assistir a lindos filmes sobre a história da Holanda.

Claro que o museu mais belo, como não poderia deixar de ser, é o opulento Rijksmuseum, que conta com dois túneis grandes por onde passam bicicletas e pedestres. Lá dentro, numa porta giratória de vidro, há um dos museus mais lindos que visitei, embora não chegue aos pés da magnificência do Louvre.

Estranhamente, o museu que mais me decepcionou foi o do Van Gogh! Tive que enfrentar uma fila interminável e confusa para ingressar no museu para, claro, mirar as telas maravilhosas do famoso pintor. Obviamente, só vi beleza nas pinturasde Van Gogh. No entanto, não encontrei a maioria das telas mais famosas dele, de maneira que fiquei um tanto decepcionado. Pensando depois, lembrei de ter visto pinturas mais bonitas de Van Gogh no Museu D´Orsay, em Paris, e na National Gallery, em Londres.

*

Dublin é uma cidade menos bonita e rica que Amsterdã. Ainda assim, tudo é compensado com uma agitação jovem que me encantou. Aliás, por possuir um programa de governo que incentiva intercâmbios, é possível ver uma miscelânea de pessoas que transitam pelas suas ruas. É comum nos surpreendermos com transeuntes falando português ou possuindo uma pele morena muito comum nos países latino-americanos, todos jovens estudantes que passeiam por Dublin como se estivessem em seus países de origem.

Os dublinenses, em sua maioria, são simpáticos e atenciosos. Contudo, eles também são um tanto grosseiros e até um pouco porcos, já que jogam lixo no chão e andam esbarrando nas pessoas. Ainda assim, todos parecem ter um grande orgulho de sua cultura e, por isso, falam com amor de todas as lendas e histórias que envolvem seu país, o que não deixa de ser algo admirável.

Uma surpresa boa de lá é que a cidade é extremamente musical. Ouvi música em todos os bares e restaurantes que fomos, sem exceção. Nas ruas, grupos se apresentam com entusiasmo até depois da meia noite, muitas vezes para um público desatento e escasso.

Outro ponto alto da cidade ficou por conta dos vários pubs espalhados pela cidade. Embora eles possuam preços salgados, muitos deles apresentam apresentações grátis de artistas, contando com uma infraestrutura aconchegante e acolhedora. As cervejas, claro, são o ponto alto de qualquer pub e talvez por isso seja muito comum vermos bêbados se arrastando pelas ruas até depois das seis da manhã.

*

O mais bonito da Irlanda, seja na República da Irlanda ou na Irlanda do Norte, é a rica paisagem verdejante que se espalha por todos os cantos. Na verdade, mesmo as estradas contam com lugares de tirar o fôlego.

Indo a Cliffs of Moher, um local cheio de precipícios na Irlanda, passei por estradas que parecem saídas de filmes europeus. Cidades pequenas, casas apertadas com telhados de feno, estradas rodeadas de árvores altíssimas e amareladas, vacas peludas, muros de pedra e ruínas de castelos.

Em Cliffs of Moher é impossível ficar parado diante de tanta beleza, de modo que saí tirando fotos como um louco, querendo reter uma prova de que estive lá e pude me maravilhar com aquelas pedras altíssimas que tocam o mar. Mesmo havendo mosquitos que teimavam em me rodear, não pude deixar de me inebriar com tanto encanto!

Já na Irlanda do Norte, fiquei assombrado com um lugar chamado “Carrick-a-rede” onde há uma ponte - que parecia saída dos filmes de Indiana Jones – que ligava dois morros que aparentavam boiar no mar agitado. No mesmo país, existe também a chamada “Calçada do Gigante”, formada por rochas vulcânicas que mais parecem degraus em direção ao oceano. É uma obra-prima da natureza, sendo bastante claro por que o local é considerado um dos patrimônios da humanidade pela Unesco.

Na verdade, a Irlanda, conhecida como o “Jardim da Europa”, encanta precisamente pela sua paisagem natural e suas pequenas cidades interioranas repletas de charme e aconchego. Uma vez lá, prometi a mim mesmo que voltaria ao país só para rodear de carro os cantos mais escondidos da Irlanda.

O maior drama que me aconteceu em Dublin ocorreu no penúltimo dia de viagem, quando meu pai transformou em terror todas as boas experiências que eu tinha tido até ali.

Estávamos numa excursão de ônibus que duraria um dia. Nossa primeira parada era num lago, floresta e ruínas que ficavam em um local chamado de Glendalough, a quase duas horas do centro de Dublin. Já no fim do passeio, vi meu pai se afastar do grupo como se fosse para tirar foto. No entanto, pouco depois, percebi com pesar que ele desaparecera. Com um horror genuíno, meu inglês virou precário de repente e me vi balbuciando frases desconexas a guias de turismo e recepcionistas à procura de meu pai desaparecido.

Quando o ônibus já havia partido e me deixado, junto com minha mãe, em um local ermo, fomos encontrar meu pai que vinha vermelho e envergonhado. Aparentemente ele havia se perdido ao tentar fazer xixi... na floresta! Irritado, cheguei a fazer um pequeno escândalo para extravasar o infortúnio. Superada a raiva, contudo, consegui ver beleza onde não mais existia e hoje fico alegre por ter tido aquela horrorosa experiência. Ao menos tenho uma história a mais para contar!

*

Quando chegamos a Dublin, encontramos meu irmão ansioso por nos ver. Estávamos morrendo de saudade e planejávamos nossos passeios querendo fazer todos com o Victor, para que ficássemos juntos o maior tempo possível.

O campus do Trinity College era muito bonito. Havia um museu e uma biblioteca no local, os quais possuíam como especial atração o tal “Livro de Kells”, cujas páginas não eram feitas de papel e sim de pele, pelo que eu pude entender (!). O refeitório servia comida barata (ou quase isso, se considerado o valor atual do euro!) e gostosa. Havia, dentro do campus, uma academia, piscina, campos para esportes e todas as regalias necessárias aos alunos.

O Victor de Dublin era muito adulto do que eu estava acostumado. Ele não só dividia apartamento com um bando de amigos que teve que fazer em Dublin (todos brasileiros), como também cozinhava, pagava as contas, lavava e passava roupas. Pelo que parece, ele tem se saído muito bem, o que nos deixou com muito orgulho.

O difícil mesmo foi partir. Nos abraçamos com olhos marejados e foi complicado sair com o carro e deixá-lo virar um ponto enquanto nos afastávamos.

*

Voltando ao Brasil, encontrei um calor insuportável, engarrafamento e o taxista mal humorado querendo cobrar dois reais por cada mala carregada. Meu Deus. Como é bom estar de férias!

Obs: Visitamos Bruges (Bélgica) também, mas preferi não escrever nada sobre a cidadezinha - que é lindíssima - visto que estive lá apenas por um dia. 

Obs2: Estava com saudades de você, blog.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 15h02
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis
Votação
  Dê uma nota para meu blog



O que é isto?