Desfragmentando PH


Sem Amarras

            

 

 

               Quando Paula disse aos pais que desejava se inscrever num teste para uma espécie de faculdade de música em Paris, estes receberam a notícia como um ataque pessoal. Tal ideia parecia um tanto ridícula para eles, dado que não só Paula era apenas uma adolescente, como também ela era a ligação deles com o mundo "exterior". Paula era a única da família que conseguia ouvir e se expressar perfeitamente, de maneira que ajudava bastante a vida de seus pais surdos ao resolver problemas e vender os queijos artesanais que fabricavam.

            O enredo acima, logicamente, foi extraído do emocionante filme “A Família Bélier”, que fui assistir sábado passado. Saí do cinema e acabei me deparando com vários espectadores com olhos vermelhos de choro recente, de maneira que me alegrei por verificar que não era só eu que havia adorado o longa.

            Claro que, passado o furor da sessão, acabei pensando em Paula e no dilema de sua família. Tirando todas as complexidades do tema, lembrei da dor que é saber que nem sempre aqueles que estão ao nosso redor podem ficar, de certa maneira, presos a nós do jeito que desejamos.

            Estranhamente, recordei de um recado que havia escrito para uma amiga há anos. Na época, havia acabado de ingressar na faculdade, e sentia que aos poucos ela ia se distanciando. Não por ter morrido a amizade, mas sim porque ela conhecia novos colegas e tinha experiências que pareciam bastante alegres.

            Sempre me deparava com fotografias repletas de sorrisos desta amiga com desconhecidos, o que, de início, me despertava ciúmes. Naqueles tempos, inaugurando a idade adulta, ainda sentia ranços de uma adolescência tardia, de modo que ainda alimentava a ideia de que as pessoas nos pertencem para sempre.  

            No recado em questão, escrevi exatamente assim: “Sinto um leve fio de melancolia quando penso que as pessoas não vivem ligadas a mim ou vice-versa. Coisa doida, eu sei. Mas é que às vezes consideramos tanto alguém que quando nos damos conta, essa pessoa já está em outra. Eu gostaria de pensar que tenho controle e onipresença sobre os passos de cada um. Gostaria que as pessoas só vivessem quando eu estivesse olhando, assistindo, vendo. É um pensamento egoísta, eu sei, mas é um pensamento. O que farei? Odeio imaginar que você tem toda uma vida longe de mim e o mesmo ocorre com o Victor, minha mãe, pai e todo mundo. Todos têm vidas independentes. Coisa mais chata! Eu também tenho, droga. Mas queria tanto saber tudo que os outros sabem, queria conhecer todos que os outros conhecem”.

            Um pouco mais velho e já maduro o suficiente para perceber que o mundo não girava ao meu redor, fui aceitando aos poucos que os melhores relacionamentos são nutridos pela liberdade e que, de certa maneira, é reconfortante saber que cada um tem seus parentes e amigos, os quais, por sua vez, também contam com sua rede de pessoas próximas.

            Por mais que adoremos nossos amigos e parentes, devemos saber que cada um possui a liberdade de ir e voltar quando quiser, que a cada um é devido fazer suas escolhas, ainda que estas nos mantenham distantes. Os relacionamentos não fazem prisioneiros. Ao contrário, tudo é escolha e confiança.

            Os pais de Paula, conquanto tenham abominado o dom da filha (talvez porque nunca pudessem apreciar o poder da música), aos poucos tiveram que permitir que a escolha dela regesse a sua vida. Da mesma maneira, eu tive que contar com a minha amiga para que mantivéssemos viva a nossa amizade, a qual, inclusive, dura até hoje.

            Ao contrário do Pedro de antigamente, eu já não desejo a onipresença nem o poder absoluto em relação àqueles que amo. Quero hoje a liberdade minha e deles para que possamos ter um relacionamento sem cobranças, sem amarras. Desejo o amor independente, sabendo que, se o sentimento for verdadeiro, ele persistirá, inabalável.

 

 

Obs: Acho que fugi um pouco do tema, mas a verdade é que temi dar muitos spoilers sobre o filme “A Família Bélier”, já que espero que o leitor vá correndo assistir porque vale muito o ingresso. 

Obs2: Você poderia me perguntar por que o primeiro parágrafo está na cor verde. A resposta: não faço a mínima ideia. Mudei para o preto mil vezes e mil vezes ficou verde. É que o blog tem vontade própria, logo não é bom contrariar.

 



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h15
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