Desfragmentando PH


O que define uma família

 

            O que define uma família?  Os mais apressados vão responder prontamente: os laços sanguíneos. Mas é só pensar mais um pouco e pronto, a pergunta deixa de ser tão simples para envolver outras questões - bem mais profundas - que devem ser consideradas nesta difícil equação.

           

            Esta indagação fica rodeando na cabeça de quem topa assistir a delícia que é “Sete Vidas”. Da mesma criadora da magistral “A Vida da Gente”, Lícia Manzo mais uma vez acerta na doçura e enche o espectador de amor na sua nova novela, que trata exatamente sobre a família.

 

A trama central de “Sete Vidas” gira em torno de sete meio-irmãos. Todos frutos de inseminação artificial, eles descobrem que partilham o mesmo pai biológico e, por isso, decidem se conhecer e participar da vida um do outro.

 

Neste caso, além de comungarem do mesmo genitor, os protagonistas compartilham da mesma escolha: eles querem formar uma família. Não basta o sangue, pois eles desejam ser amigos e participar de festas, encontros, jantares juntos. Enfim, anseiam por ser uma família, ainda que cada qual possua sua vida.

 

Aliás, na mesma novela, existem vários tipos entidades familiares, de todas as espécies e formatos. Existe o homem que cuidou do filho da esposa que faleceu. Há a amizade inexplicável entre primas. Existe a mãe lésbica que criou dois filhos. E por aí vai, numa miscelânea que muito parece com a vida real.

 

A verdade é que há muito a família deixou de ser uma relação consanguínea para se tornar algo muito mais amplo. Na verdade, quem acompanhou esta mudança, por incrível que pareça, foram os operadores do Direito que deram um nome muito bonito para aquilo que une todas as pessoas: a socioafetividade.

 

Hoje em dia já não basta aqueles que acreditam que gerar um filho é apenas doar sêmen. Ao contrário, o que mantém todos unidos num núcleo familiar é uma relação que transcende todas as questões biológicas e transborda para aquilo que envolve almas: o reconhecimento do amor.

 

 Aquele homem que reconhece como seu o filho de outrem. O casal de gays que cria uma criança. Um homem e uma mulher que se casam. O irmão mais velho que cuida dos mais novos quando os pais morrem. Todos formam famílias ligadas pela necessidade de querer cuidar e fazer parte da vida um do outro.

 

Talvez por isso ainda me assuste com algumas pessoas que, filiadas a um preconceito aterrador - muitas vezes revestido de falsa religião ou moralismo -, visam criar leis e empecilhos à formação de famílias heterogêneas, objetivando engessar o progresso a fim de legitimar atitudes mesquinhas.

 

Para dar um exemplo, cito o Estatuto da Família (Projeto de Lei nº 6583/13) que tramita no Congresso Nacional. Na contramão do entendimento do Supremo Tribunal Federal que entendeu que a união homossexual é considerada uma forma familiar, o referido projeto de lei diz que só é família quando existe a relação entre homem e mulher. Nesta linha, o tal estatuto proíbe, ainda, adoção por casais gays.

 

Passando ao largo da clara inconstitucionalidade do aludido projeto de lei, é certo que ainda hoje parecemos viver em plena idade média. Muitos brasileiros visam modificar a realidade, fechando os olhos para a evolução da sociedade e pregando a disseminação da intolerância.

 

Há poucos anos era ilegal se divorciar. Era ilegal considerar iguais os filhos gerados na constância do casamento e aqueles oriundos de uma relação extraconjugal. Era ilegal a mãe registrar o filho sem a presença do pai.

 

Contudo, diante da evolução da sociedade, a legislação teve de ser alterada para se amoldar aos novos tempos, já que as famílias atuais merecem a mesma luz que aquelas formadas por mamãe-casada-com-papai.

 

Muitos diziam que o divórcio iria aniquilar a família tradicional. Isso não ocorreu. As pessoas continham casando e vivendo em união estável. Muitos diziam que não era justo que um “bastardo” tivesse os mesmos direitos que uma criança gerada durante o casamento. Mas seria justo uma criança pagar pela traição do(a) pai/mãe?

 

As teses dos preconceituosos vão caindo uma a uma. Contudo, o que me preocupa não é a inconsistência dos discursos de ódio, mas sim os olhos fechados e os corações amargurados que não conseguem aceitar que as pessoas são diferentes e merecem viver com liberdade.

 

O que define uma família, ensina Lizia Manzo em “Sete Vidas”, é o amor que une os indivíduos. O lugar que nascemos e as nossas origens são relevantes porque elas nos dão uma base sólida para nos conhecermos melhor, mas é o amor que mantém todos unidos.

 

Família – quem diria? – também é escolha. É a escolha de viver junto, de partilhar momentos, de querer fazer parte da vida do outro. É amor, pura e simplesmente.

 

 

Obs: Esse blog tem uma formatação louca de texto que foge do meu conhecimento. Tem vida própria, então desculpe o leitor qualquer fonte e tamanho estranhos dos posts que encontrar por aqui.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h00
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