Desfragmentando PH


O Verdadeiro Feminismo

 

 


             Na noite da cerimônia do Oscar, as imagens da Meryl Streep apoiando o discurso inflamado da Patricia Arquette rendeu memes hilários. Patricia, na ocasião, aproveitou a sua vitória para apoiar o salário igualitário entre homens e mulheres.

              Pudera: em um e-mail vazado por hackers sul-coreanos, descobriu-se que Hollywood faz uma absurda diferenciação remuneratória entre gêneros. Para dar um exemplo, veio à tona o fato de que Jennifer Lawrence e Amy Adams ganharam a porcentagem de 7% sobre o valor da bilheteria do filme “Trapaça”, enquanto seus colegas Bradley Cooper, Jeremy Renner e Christian Bale levaram 9% pelo mesmo trabalho.

             Claro que a situação de Hollywood se repete em todos os setores da sociedade, já que, em pleno século XXI, os homens recebem bem mais do que as mulheres, ainda que exerçam a mesma função. As explicações para tanto acabam recaindo na velha história de que os homens costumam ser mais dedicados à vida profissional, enquanto as mulheres acabam sempre trabalhando divididas entre o lado pessoal e o trabalho, o que já deixou de ser verdade há muito.

              Não à toa, a causa feminista vem ganhando força nas redes sociais nos últimos tempos. Nunca se viram tantos posts que apoiam as mulheres em todas as suas lutas típicas, que vão desde a luta pela igualdade salarial até o direito a sentir prazer no ato sexual, o que já demonstra, por si só, uma evolução considerável na disseminação do feminismo.

            O feminismo atual tem como ídolo a figura da atriz Emma Watson que, tal qual Hermione faria, se dedicou a esta causa nobre ao fazer discursos a favor das mulheres em várias cerimônias internacionais. Ela, pelo que consta, é o rosto da campanha “He For She”, convocando os homens a também apoiarem a causa feminista, o que, de certo modo, estou fazendo aqui, com este post.

              De fato, sempre apoiei as maiores causas feministas com muita boa vontade, já que tenho uma horda de maravilhosas mulheres que me rodeiam, seja na família, no círculo de amigos ou em qualquer lugar que eu vá. Simpatizo com a idéia de equiparação salarial, igualdade de direitos, liberdade irrestrita, luta contra estereótipos, etc.

            No entanto, a meu ver, o maior entrave contra esta causa está no pensamento enraizado da população, que ainda traz ranços um tanto equivocados do machismo. E não adianta dizer que apenas homens são machistas, porque isso é fechar os olhos para uma realidade que talvez pareça incômoda: muitas mulheres também o são.

            Obviamente, as pessoas pensam que ser machista é chamar de “piranha” alguém que beija/transa com mais de um homem por noite. Ou é reclamar do vestido curto da namorada na hora de sair. Ou é quem acha que lugar de mulher é mesmo na cozinha e no tanque de lavar roupa. Claro que isso tudo faz parte do pacote, mas limitá-lo é um pensamento equivocado.

            Façamos um teste: no primeiro encontro, quem tem de pagar a conta do restaurante? O homem tem que buscar a mulher na sua casa? O homem tem que abrir a porta do carro para a mulher sair?

            Quanto ao comportamento, novas indagações: você acha que aquela sua amiga que transa com um cara a cada semana é vagabunda? E aquela sua amiga que trai o marido? Você reprova aquela mulher que diz que não quer casar e ter filhos? E aquela amiga que esqueceu de depilar o buço? E aquela que fala palavrão? E aquela que bebe todos os dias? O homem é obrigado a reagir quando provocado? O homem é obrigado a usar a força quando necessário pelas circunstâncias? ?  Você acha que o cara tem tendências homossexuais quando ele não exige sexo com regularidade ou quando não elogia mulheres? O homem deve defender a mulher sobre toda e qualquer circunstância?

            E em casa: Você permitiria o seu filho brincar com bonecas, fornos elétricos ou utensílios de cozinha de brinquedo? E usar blusas cor de rosa ainda que seja bem criança? Você exige que seu marido divida as tarefas domésticas com você? O homem é obrigado a arcar financeiramente com a maioria das contas da casa?

           Claro que eu poderia continuar fazendo perguntas infinitas cuja resposta eu imagino. O machismo é algo enraizado na nossa cultura, de modo que temos todos que reconhecê-lo em nós mesmos e lutar contra ele, assim como fazemos com os nossos próprios preconceitos.

            O feminismo se preocupa muito em lutar pelos direitos absolutos das mulheres em grandes frentes e, às vezes, se esquece do panorama maior. O maior desafio não é ter igualdade de direitos e deveres, pois estes já estão assegurados na Constituição Federal e nas demais normas jurídicas.

            Na verdade, o maior desafio é mudar a forma de pensar da sociedade. O machismo continuará a reinar ao menos que sejam alteradas a criação e os ensinamentos transmitidos às crianças. Também é necessário modificar a forma com a qual reagimos nas relações cotidianas, já que estamos todos inundados em preconceitos e premissas equivocadas.

             A verdadeira feminista não é aquela que quer ter o mesmo salário que o homem, mas que, ao mesmo tempo, sonha em casar com o Príncipe Encantado. Não é aquela que adora a Emma Watson, mas que continua difamando aquela amiga que transa com todos os caras da faculdade. Não é aquela que diz pro filho que mamãe tem que passar roupa enquanto papai brincará com ele.

              Feminismo não pode ser uma luta vazia por direitos. Ele deve envolver uma forma de pensar e de se comportar. Feminismo envolve liberdade de ser, querer e agir. É preciso mudar para só então pensar em uma igualdade que saia do papel para se tornar realidade.

 

Obs: Acho que, de certa maneira, acabei aderindo à campanha “He For She” da Emma Watson

Obs2: Este é o primeiro post de 2015 de “Desfragmentando PH”. Que vergonha deste blog abandonado!



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 19h53
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