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Paradoxos

Sempre que posso, tento assistir ou ler obras que saiam um pouco do circuito comercial. Embora eu adore uma comédia romântica e um livro despretensioso, às vezes é bom encarar artes mais profundas, que passam mensagens contundentes e que incitam o raciocínio. Por incrível que pareça, muitas vezes um longa independente ou um livro bem escrito pode nos engrandecer, seja por propor uma reflexão, seja por retratar realidades sob óticas que não estamos acostumados a enxergar. Pensando assim, topei assistir ao filme “Persona - Quando Duas Mulheres Pecam”, roteirizado e dirigido pelo famoso Ingmar Bergman. Bergman é o queridinho de cineastas do quilate de Woody Allen, e encarado pela crítica como um dos gênios da sétima arte. Seus longas sempre são cultuados pelos especialistas, que põem seus filmes nas listas dos melhores já feitos. “Persona” conta a história de duas mulheres. Uma delas, famosa atriz, emudece por motivo desconhecido. Não há qualquer problema físico nem mental, apenas a escolha de permanecer quieta. Logo é recrutada uma enfermeira dócil para cuidar dela. Entre as duas, inicialmente, se cria uma relação de amizade. A enfermeira conta seus segredos, enquanto a outra ouve amavelmente. No entanto, conforme o relacionamento vai evoluindo, ressentimentos e acusações vão surgindo. Mais incrivelmente, a personalidade das duas vai se misturando a ponto do espectador não conseguir mais saber quem diz o que, quem é quem. Filme cabeça mesmo. No meio de tantas leituras que o longa permite, uma delas é a discussão sobre a identidade e personalidade das pessoas. A enfermeira Alma (Bibi Andersson), por exemplo, é retratada, a princípio, como uma doce sonhadora. Ama seu noivo, quer casar. Aos poucos, contudo, quando lhe é dada a oportunidade de falar sem ser interrompida e - melhor! - ser ouvida atentamente, ela acaba contando seus segredos. Já fizera um aborto. Já se entregara, sem culpa, a uma orgia com dois desconhecidos e uma amiga. Ora chora, ora ri ao relembrar o passado. A atriz (Liv Ullman) a escuta, sorri placidamente, faz carinho. Mais tarde, a atriz, num bilhete a uma conhecida, escreve que Alma diz não entender como suas ações não condizem com sua personalidade, com quem ela é. Ou seja, ela age de forma que sequer compreende, como se fosse movida por um lado seu que lhe é desconhecido. De alguma forma, é como se Alma tivesse várias facetas dentro de si, algumas delas inconscientes. Como se, deixando-se levar pelos fatos, sem tentar racionalizar o que se vive, ela tomasse atitudes que não consegue explicar depois. A mulher inocente e dócil que começa o filme, não parece condizer com aquela que se embrenha numa pequena orgia. Alma é paradoxal e, à primeira vista, parece indecifrável. Como pode alguém abrigar duas facetas tão distintas dentro de si? Inicialmente, o primeiro palpite seria que ela não se conhece tão bem. Talvez a visão de si mesma não seja correta, e ela apenas pense ser algo que não é. Mas aí pergunto: então Alma não é inocente, não é dócil? Claro que é. O que penso é que Alma não é uma coisa só. Ela reúne tantos “eus” quanto possível, sentindo, agindo, cada minuto de uma maneira. Guarda dentro de si sentimentos e pensamentos que soam paradoxais quando confrontados, mas que a definem como é. Apesar de não se conhecer totalmente, existe espaço dentro dela para a amabilidade e outras qualidades nobres, mas também há a devassidão, o inesperado como um todo. Se for refletir com calma, somos como Alma. O viciado em drogas que conhece os estragos que os entorpecentes fazem. O estudante de concurso que fica na Internet ao invés de estudar. A mulher que diz amar seu marido, mas o trai. O sedentário que se recusa a se exercitar. O gordo que adia a dieta para as segundas-feiras. O vagabundo desempregado que diz que vai procurar emprego amanhã. Todos se conhecem bem o suficiente para saber que o que fazem é errado. No entanto, continuam agindo da mesma forma, muitas vezes contrariando a consciência, que reclama em seus ouvidos. São apenas exemplos de como podemos guardar lados opostos dentro de nós, não havendo possibilidade de nos dissociar. Simplesmente não conseguimos ser lineares e unifacetados. Somos uma reunião de “eus”, assimétricos, distintos, que se confundem numa pessoa só. Há lados que reconhecemos e outros totalmente ignorados, que vão se revelando pouco a pouco, a ponto de nos surpreendermos com algumas atitudes que tomamos. Como Alma, somos complexos. Carregamos nossas personas (máscaras, em latim) embaixo do braço, enquanto, dentro de nós, existe o conhecido na superfície e todo um desconhecido nas profundezas. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Antes que o leitor tope assistir a “Persona”, saiba que é um filme genial, muito bem feito, com diálogos incríveis. Porém, é parado e tem cenas muito difíceis de interpretar. Falo isso antes que queira me tacar pedra após assistir ao imprevisível desfecho.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h39
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Novo Homem, Nova Mulher

Na quinta-feira passada, alguns amigos se envolveram num debate sobre a busca pelo prazer. Enquanto um filosofava que as pessoas deveriam ir de encontro ao que lhes aprazia, outra dizia achar errado as mulheres que se entregavam sem pudor a libertinagem. Para ela, os homens seriam devassos por natureza, e cabia às mulheres o dever de se preservarem como podiam. Isto é, não podiam ceder aos hormônios nem às investidas de marmanjos interessados no prazer pelo prazer. Embora a discussão seja requentada e a visão de minha amiga tenda para uma visão machista dos fatos, não a culpo. Ela apenas defende aquilo que aprendeu com as pessoas que a cercam e, apesar de sua tese parecer ultrapassada, não a tiro a razão. Ela, apenas, apontou algo errado na sua opinião. Para minha amiga, sexo casual é sinônimo de pecado. Tudo bem. Isso é o que ela pensa. O Direito me ensinou que cada um pensa de maneira diferente e cabe aos outros respeitarem os diversos entendimentos que se opõem. Eu, claramente, não partilho da mesma teoria de minha amiga. Pra mim, as pessoas devem fazer sempre aquilo que lhes gere satisfação, desde que seus atos sejam conscientes, não machuquem ninguém e suas conseqüências sejam bravamente suportadas. Se uma mulher quer transar casualmente com alguém porque isso lhe dá prazer, então transe. Qual é o problema? Cada vez mais conheço mulheres que já não carregam as cruzes de gerações anteriores. Hoje em dia posso apontar exemplos de amigas que não precisam apelar pra castidade para se sentirem honradas. Muitas já não acreditam que casamento e felicidade são sinônimos, e outras não ligam a maternidade a um pressuposto pra uma vida realizada. Do mesmo modo, vejo homens que não precisam encarar o papel de galã latino para provarem a virilidade. Homens que querem sim formar uma família, que desejam namorar sério. Que vêem o sexo como algo natural de qualquer relacionamento, sem qualquer exagero juvenil. Claro que sempre existirão os machões insensíveis e as beatas castas, mas eles já não são modelos únicos que representam os sexos. A diversidade aceita e difundida parece ser a saída para uma ampliação da liberdade. Sei que estamos todos submersos em vazias moralidades, preconceitos e julgamentos próprios, e que é difícil se dissociar do que pensamos ser o correto. Contudo, creio que cabe a cada um criar o seu conceito do que é certo, já que a subjetividade da palavra permite diversas correntes. No entanto, que as pessoas guardem para si as suas opiniões, permitindo que aqueles que pensam diferente tenham a liberdade de serem e acharem o que quiserem. Ainda que a minha amiga acredite que o sexo casual seja algo errado em sua opinião, deve ela se pautar pelas próprias atitudes. Isto é, deve ela negar sexo pelo mero deleite porque, desta feita, sua consciência estará limpa. Por outro lado, o melhor a fazer seria que ela aceitasse as mulheres que pensam diferente, guardando seu julgamento moral do que é certo ou não para si mesma. A liberdade permite que a diversidade se imponha totalmente, sem subterfúgios. A partir do instante que as pessoas pararem de tentar mudar os outros e os reconhecerem como são, a aceitação será quase plena. Piranhas existem. Gays e lésbicas também. Religiosos. Travestis. Héteros. Brutamontes. Magricelas. Nerds. Castos. Inocentes. Espertos. Ninfomaníacos. E daí? Que cada um se encaixe no estereótipo que lhe apetecer ou, então, que funde seu próprio grupo. A diversidade tem pra todos os gostos. As mulheres e homens estão mudados porque a evolução caminha em direção a liberdade de ser como é. Cada um sabe o que lhe dá prazer, cada um sabe quem é, cada um sabe de si. Que todos prefiram buscar a auto-satisfação, ao invés de controlar os prazeres alheios. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: Coloquei uma foto do filme “Amizade Colorida” que, assim como “Sexo sem Compromisso” e “Qual é o seu número?”, conta enredo de uma mulher que gosta muito de sexo e não tem medo de assumir. Obs2: É impressão minha ou eu fugi do tema?
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h03
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Irmãos

Sou um noveleiro seletivo. Ou seja, escolho a dedo quais tramas acompanhar, pesando sempre o novelista e o elenco no instante de me postar diante da televisão. Eu, por exemplo, não vejo os trabalhos do Aguinaldo Silva (de “Fina Estampa”) e muito menos os de Miguel Falabella (de “Aquele Beijo”).
No momento, apenas assisto a “A Vida da Gente” e, mesmo assim, aos sábados, quando dá. A história é bela, emocionante e muitíssimo triste. Sua originalidade está na falta de grandes vilões. Todos os personagens erram bastante, mas sempre por motivos compreensíveis e verossímeis. A história principal gira em torno de duas irmãs. Ana (Fernanda Vasconcellos) é uma tenista que engravida de Rodrigo (Rafael Cardoso). Porém, ao sofrer um acidente, fica em coma. Sua irmã Manuela (Marjorie Estiano, estupenda atriz!), então, resolve criar a filha de Ana, ao lado de Rodrigo, acabando por apaixonar-se por ele. Após a tenista acordar do coma, o drama se impõe e os sentimentos se misturam. As duas amam o mesmo homem, a filha toma a tia como mãe e a confusão impera. O grande dilema que permeia a trama é: como viver bem sabendo que sua felicidade é a causa do sofrimento de alguém que ama? Manuela e Ana se amam demasiadamente, nutrindo devoção mútua, digna das irmãs mais fiéis. Esta ligação é o grande motor de “A Vida da Gente”. Assistindo a novela, confesso que, às vezes, mesmo que por um instante, acredito que a novelista (Lícia Manzo) está exagerando na fidelidade das duas irmãs. Como pode alguém guiar seus passos pensando no outro desta maneira? Como pode renunciar à própria felicidade, ao grande amor, em prol de um terceiro? No entanto, no instante seguinte, penso melhor e pondero a possibilidade desta renúncia, caso eu estivesse, de fato, no lugar de uma das duas irmãs de “A Vida da Gente”. Quem ama uma pessoa de verdade sabe que sacrifícios são comuns, sendo, muitas vezes, provas de amor. A felicidade própria a custo da felicidade alheia pode ser um preço alto demais, ainda mais quando se trata de um irmão. Por irmãos se faz muito, se dá o que tem. E embora “A Vida da Gente” retrate uma obra de ficção, existem irmãos tão próximos quanto Ana e Manuela na vida real. Eu mesmo sou testemunha de várias duplas, trios e até quartetos juntos em uma união indissociável. Passeando pela internet, numa rede social, vou vendo recados genéricos trocados entre irmãos. Um link de um show que um coloca pro outro ver. Uma mensagem afetuosa de saudade. Longe do facebook, um telefone toca, um torpedo chega. Um irmão que fica com outro no hospital. Um presente inesperado. Desta forma, de maneira simples, um carinho imenso vai se revelando. Sinceramente, seria fácil explicar tal devoção baseando-se apenas na criação e no crescimento junto. Natural que houvesse afeto entre duas pessoas que viveram juntas a vida toda. Entretanto, Caim e Abel e outros exemplos menos trágicos mostram que nem sempre os irmãos convergem para um caminho comum. Personalidades distintas, divergências e falta de carinho são motivos de afastamentos, assim como outras justificativas tão ruins quanto. Conheço, infelizmente, irmãos que não se gostam. Com isso, apenas desejo comprovar que o que une dois irmãos é bem mais do que a sorte de nasceram na mesma família. É o amor sim, mas também a escolha de estar junto e de superar brigas tolas que eventualmente acontecem. É a verificação que vale a pena ter o melhor amigo do lado, seja como ele for. Eu tenho o meu. E ele é meu amigo, embora sejamos diferente a ponto de termos gostos totalmente opostos. Enquanto eu faço o estilo leitor, sedentário e caseiro, ele adora esportes, uma rua, um flerte. Contudo, só ele gosta de Friends como eu, só ele entende quando digo “Whaaaat?” imitando Aaron Sumuels (de “Meninas Malvadas”), só ele conhece como eu brincava de bonecos e só ele me agüenta quando me sinto um verborrágico carente. Temos um passado partilhado, e um presente também. O futuro decerto será nosso enquanto o amor durar. E posso garantir que não existe amor maior. Lembro agora de uma foto que minha mãe diz ser sua preferida. Segundo ela, é a fotografia de sua vida. Foi tirada assim que fui trazido para ver meu irmão na maternidade. Eu tinha meus cinco anos e vinha pedindo, há tempos, um irmãozinho. Minha mãe e meu pai me deram um. Na fotografia, minha mãe olha cansada e inchada pra câmera, ao passo que ampara meus braços. Eu, com os olhos - brilhando de alegria - voltados à câmera, seguro meu irmão enrolado num manto branco. E um sorriso aberto no meu rosto demonstra o maior amor do mundo. Talvez por isso, quando assisto “ A Vida da Gente”, me compadeço pelo drama de Ana e Manuela. Assim o é porque eu conheço o amor que nutrem. Entretanto, sei que as duas não conseguirão ficar longe por muito tempo. Isso porque o amor de irmão, quando forte o bastante, não admite a infelicidade do outro. E a felicidade delas está nos abraços que decerto irão trocar. Desta feita, não resta alternativa diversa a não ser a reconciliação de ambas. Sei que o leitor deve estar se perguntando o porquê de um post tão meloso num domingo corriqueiro de janeiro. É que hoje quis homenagear o presente que pedi a minha mãe há muitos anos, quis homenagear o meu melhor amigo. Hoje é o aniversário do meu irmão e esse post é pra ele. Feliz Aniversário, Victor. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. 
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h54
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Um Brasil Diferente

Em Gilmore Girls, uma das protagonistas, a inteligente Rory (Alexis Bledel), tinha um pôster do Brasil em seu quarto. Neste, não havia uma foto do Rio de Janeiro nem de nenhuma praia baiana. Existia tão somente uma fotografia de uma bela igreja com os dizeres: “Travel to Historic Brazil” (Viaje para o Brasil Histórico). Quando eu flagrei tamanha excentricidade num conhecido seriado americano, levei um susto. Poxa, até a Rory queria conhecer a história do Brasil! Então por que não eu? Por que não nós, brasileiros, temos o mesmo desejo? Na escola, a matéria de História costuma dividir os gostos dos alunos. Uns adoram, outros odeiam. Porém, é quase unanimidade o desinteresse dos jovens quando os professores resolvem abordar a história do Brasil. Vi muitos bocejos, cochilos e fuxicos em sala. No entanto, apenas compreendendo a história, pode-se entender o porquê do país ser como é hoje. Como chegamos aqui, quem somos, como fomos, o quanto evoluímos e o que nos falta. É um erro diminuir o passado a ponto de reduzi-lo a um conhecimento menor e inútil. Pensando assim, topei fazer uma excursão pelo Brasil histórico. Não em homenagem ao finado seriado “Gilmore Girls” nem a Rory, mas por genuína vontade de ver um Brasil que não estou acostumado. Pelas cidades históricas de Minas Gerais, vi muitas igrejas, algumas bem parecidas com as do pôster da protagonista da referida série. Mas também entrei numa verdadeira mina de ouro. Percebi detalhes e minúcias de uma história que não se aprende na escola. Vi lugares que apenas conhecia de nome, conheci cenários reais de histórias verdadeiras, vislumbrei obras de arte e aprendi muito. O aprofundamento cultural foi gratificante, assim como a diversão e o descanso das férias. Ter escapado do roteiro das praias foi bom. Não só porque sou um brasileiro branquelo e meio avesso a tumultos nas areias, mas também porque gosto da idéia de ver o outro Brasil. O país que foge do senso comum de caipirinhas, pessoas bonitas e futebol. Existe um Brasil além do litoral e dos clichês que estamos acostumados a repetir como papagaios. Um país rico em literatura, em cultura, em artes em geral, em história! Ninguém vê nada disso, ninguém reconhece. Contudo, creio que é momento de despertar pro que nós temos. Somos maiores do que praias, Copa do Mundo e Olimpíadas. Chega de alimentar estereótipos criados no estrangeiro. Pare de reduzir um país tão afortunado. Um Brasil multifacetado existe e é hora de reconhecê-lo. Mas não adianta só eu falar. Você, leitor, deve despertar pro que somos verdadeiramente. Ver o que temos, quem somos, o que produzimos (inclusive culturalmente) e aí sim defender um patriotismo que vai além do fanatismo da Copa do Mundo. Quem sabe assim o Brasil fuja dos clichês em que está imerso, passando a se reconhecer como é e não como pensa(m) que é. * Sei que o primeiro post do ano veio bem diferente do que o leitor imaginava. Na verdade, veio distante do que eu pensava inicialmente também. Sentei diante do computador com uma idéia na cabeça e, conforme fui escrevendo, um post distinto surgiu diante dos meus olhos. A escrita de improviso é assim: inesperada. Ainda assim, passei aqui pra desejar um 2012 felicíssimo pro amigo leitor. Desejo a felicidade plena pra você e também que nada atrapalhe nosso encontro semanal. 2012 é um ano especial pra “Desfragmentando PH”, leitor. Em fevereiro, o blog completará cinco anos e estou pensando em fazer algumas peripécias especiais pra comemorar. Vou pensar melhor e depois conversamos melhor. Enquanto isso, só me resta desejar feliz ano novo. Fico por aqui. Até a próxima. Obs: A primeira foto foi tirada por mim em Congonhas (MG) e retrata dois dos doze profetas do Aleijadinho, os quais são considerados as obras-primas do artista.

Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h36
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Fechado para Balanço

A última aula de 2011 estava para começar, quando esbarrei com a amiga Carla no corredor. Entre breves comentários, acabamos conversando sobre o inevitável fim do ano. E eu, com a minha característica verborragia, desatei a pichar 2011, dizendo que nada aconteceu de bom. Carla concordou comigo. Com isso, resolvemos trocar esperanças de melhoras em 2012. De fato, 2011 foi um ano sem muitas novidades para mim. Nenhuma grande vitória, nenhuma surpresa arrebatadora. Não tive grandes felicidades nem lembranças que ficarão marcadas na memória. Por outro lado, fui testemunha de mudanças nas vidas dos meus amigos. E eu, que sou um torcedor da felicidade alheia, fiquei contente por eles. Uma amiga do peito passou prum concurso almejado, o que me lotou de orgulho. Uma outra amiga conseguiu tomar a coragem necessária para fazer uma escolha que adiava por anos. Amigos se casaram. Minha afilhada de crisma se formou na faculdade. Meu irmão começou o seu curso de farmácia. Amigas passaram na OAB. Grandes alegrias que tive o prazer de compartilhar e, embora não fossem minhas vitórias pessoais, não pude ficar isento. Fiquei feliz junto, comemorei. Entretanto, isso tudo apenas me fez ver que algo me faltou em 2011. De alguma forma, eu também queria festejar por mim. Foi pensando deste jeito que estava tendendo a escrever um post pessimista hoje à noite. Finalmente, iria despejar minhas mágoas por ter sido preterido pelo Inesperado e me queixaria lamentavelmente com o leitor. No entanto, refletindo sobre o que escrever, me peguei pensando além. E um espírito de Pollyana me tomou de repente. Percebi que apenas recordava de coisas boas na vida alheia, quando, na verdade, terrores também ocorriam diariamente. E então, o pessimismo me deixou. Simplesmente voou longe, foi pousar suas garras em outro. Eu estava livre pra pensar o lado bom de 2011 e, imediatamente, lembrei da minha primeira (e tardia) ida à Lapa. Do meu primeiro porre. Das pessoas maravilhosas que conheci durante o ano. Dos amigos que fiz e venho mantendo há um bom tempo. Dos posts do blog que me alegram toda semana. Do carinho que recebo. Da primeira vez na minha vida em que tomei a responsabilidade pelo meu destino, resolvendo apostar minhas fichas em mim mesmo. Reconheço que é um erro de percurso imaginar horrores quando, honestamente, a vida apenas correu o seu curso natural. Se não tive alegrias arrebatadoras, também não sofri grandes tristezas. Lamentar pelos dias passados pode ser um bom exercício de auto piedade, o que, infelizmente, traz poucos ganhos práticos. Existem lombadas pelo caminho, é claro, e isto deve servir como aprendizado pro que está por vir. 2011 não foi tão bom assim. Tudo bem, isso é uma conclusão que cheguei. Mas a pergunta seguinte é: e daí? O que farei com isso? Se meus objetivos não foram alcançados, existe algum motivo. Não há nenhum vilão atrás de mim, apagando meu rastro. Não há nenhum deus grego tramando pelas minhas costas. Então o que está errado? O que está faltando pra eu chegar à minha meta? Essas são as reflexões necessárias no fim de ano. Não adianta o ano virar, as esperanças se renovarem, se nada mudará. A maior modificação sempre ocorre dentro de nós mesmos. Se minha grande amiga passou num excelente concurso, foi porque se dedicou, estudou pacas. Se minha outra amiga tomou uma decisão importante, foi porque ela preferiu pôr um ponto final numa história sem futuro. Se amigos casaram foi porque se amavam o bastante e acharam que era hora de ficarem juntos definitivamente. As melhores coisas não acontecem por acaso. Muito da vida vem da nossa responsabilidade, das escolhas que fazemos. 2011 vai terminando e já não dá mais para recuperá-lo. O Natal se aproxima, logo, logo, o Réveillon estoura e pronto, 2012 toma o seu espaço. Em 2012, não posso afirmar que tudo vai ser diferente. Não posso contar com surpresas, se ainda não as tive. Mas posso contar comigo mesmo, com novas atitudes, pensamentos e esperanças. Enquanto o ano não acaba é hora de fechar pra balanço, pesar coisas boas e ruins que aconteceram em 2011, traçar novos planos, fazer mudanças. E aí sim, quando o céu colorir de fogos de artifício no Réveillon, estarei pronto. Pronto para 2012, pronto para novas felicidades e vitórias que me esperam. Que nos esperam, leitor. Feliz Natal. Feliz Ano Novo. Em 2012, estaremos juntos, como sempre.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h16
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Sozinho por Opção

Às vezes me isolo de propósito, outras vezes sem querer. Gosto de ficar sozinho, sempre gostei. Chegar em casa, não encontrar ninguém. Correr pro som, colocar a música que quiser, no volume que me apetecer. Ligar a televisão, escolher o filme de minha preferência. Dominar a casa, fazer o que bem entender. Cantar, falar sozinho, entrar na Internet e ficar horas. Naquele pequeno tempo que fico só, me sinto como o dono da felicidade. Como se me reconhecesse como o único capaz de trazer o meu contentamento, através das escolhas mais banais que possa tomar. Tudo depende de mim e isso me engrandece. Por alguns minutos, me basto. Por outro lado, de vez em quando, sinto falta de sair. Pode ser até sozinho, por que não? Contudo, às vezes não me incomodo de levar um amigo comigo, uma companhia. Às vezes tenho vontade até mesmo de bater um papo, fazer uma coisa em grupo. Chega a bater saudades de certas pessoas e não me falta vontade de revê-las. Entretanto, constantemente encontro uma barreira nas pessoas que ouso convidar. Elas sempre parecem dispostas a impor suas próprias regras, que confrontam diretamente as minhas. Convido-as para um cinema, por exemplo, à tarde. E logo vem o argumento de que está muito cedo; que cinema, só se for na última sessão. Um espetáculo, então? Coisa pra velho. Música ao vivo? Chato. E aí surgem as sugestões. Que tal um bar? Lapa? Festa na casa de um desconhecido? Filmes besteirol? Papos maçantes? Tudo isso, claro, marcado em cima da hora, para que eu não tenha tempo sequer de refletir ou me programar. Obviamente, às vezes abro uma exceção e topo me sujeitar a vontade dos meus amigos. Rendo-me simplesmente, me entregando a programas que sei que vou desgostar, que sei que não vou me divertir. Mas faço isso em nome da amizade, uma prova que forneço meio de má vontade. Todavia, quem está disposto a se entregar aos meus desejos? Acatar minhas sugestões, ainda que sejam programas vespertinos e de velho? Pouquíssimas pessoas, se quer saber. Por isso, não me culpo quando apenas conto comigo mesmo. Há muito deixei de me render aos outros apenas. Comecei a suprir minhas próprias vontades. Quinta-feira passada, por exemplo, matei a aula do curso e resolvi ir ao Sesc Ginástico assistir a uma peça Comprei ingresso, paguei barato e fui assistir ao musical “A Aurora da Minha Vida”. A peça é antiga, já ganhou muitos prêmios, e passou por uma reformulação antes de chegar aos palcos novamente. O elenco é excelente, o texto é engraçado e inocente ao mesmo tempo, e as músicas ótimas. Imperdível. Saí do teatro com a certeza de que não queria ter estado em nenhum outro lugar. Fui sozinho e não me arrependo. Se tivesse esperado por amigos, decerto perderia a oportunidade de assistir ao espetáculo. Não me entenda mal, leitor. Evidente que meus amigos são maravilhosos, gosto de todos por motivos diferentes e os considero como partes indissociáveis de mim. São responsáveis por parcelas da minha alegria. No entanto, não são os responsáveis exclusivos da minha felicidade nem são alvos de minha total atenção. Muito do meu contentamento depende de mim, e, por isso, devo concentrar minha atenção primária em mim mesmo. Se não topam os meus programas, tudo bem. Eu os faço e não dependo de ninguém pra isso. Reconhecer-se importante sempre foi o passo primordial para a satisfação pessoal. Se quero ir ao cinema, vou. Ao teatro, vou também. Ao céu e depois ao inferno, lá estarei, se desejar. Muita gente gravita sua vida ao entorno dos outros, sempre foi assim. Têm vergonha de ir a qualquer lugar sem companhia. Acha que não vive bem sem um amigo do lado, um parente. Resmunga, pede atenção. Dá shows de carência e mendiga por alguém. Eu, não. Dá licença que vai quem pode, quem quer. Eu quero e não vou ficar esperando. Não estou dizendo com isso que sou auto suficiente ou o maioral. Preciso sim dos meus amigos, dos meus familiares, de outras pessoas pra ser feliz totalmente. Entretanto, não vou tolher meus desejos por causa dos outros. Sou responsável por parte da minha felicidade e, por esta parte específica, vou lutar sempre. Assistindo a “A Aurora da Minha Vida”, estava feliz. Só. Existem outros filmes, outras peças, outros desejos. Quem quiser ir comigo, está convidado. Mas se não quiser ou puder, não se preocupe. Vou sozinho e estarei bem. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: “A Aurora da Minha Vida” fica no teatro Sesc Ginástico até o final de janeiro, se não me engano. Vale a pena. O ingresso é barato e o musical, ótimo. Recomendo.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h10
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Adiando a Felicidade

O leitor mais antigo sabe que não gosto muito de bestsellers. Na verdade, tenho verdadeiro preconceito, acreditando que a linguagem empregada é vazia, o enredo é muito simplório e o tratamento do tema é superficial. Embora saiba que existem exceções, prefiro não arriscar. Deste modo, apelo sempre pros clássicos ou pras obras que são recomendadas pela crítica especializada. Assim, sei que dificilmente irei me decepcionar. No entanto, há vários meses, me deixei envolver por uma crônica do Artur Xexéo que recomendava um bestseller, dizendo que o livro “Um Dia” seria uma espécie de “Love Story” da modernidade. Para piorar minha situação, a tal obra havia virado uma febre em Londres e estava sendo considerada uma comédia romântica das boas. Tais argumentos serviram para que eu abrisse uma exceção pra esta obra, que adquiri tão logo começou a ser vendida nas livrarias brasileiras. Como de costume, vinha lendo no ônibus, e não me decepcionei ao encontrar uma trama agridoce, tocante e com diálogos muito bons. Embora o início do livro imponha um ritmo e uma docilidade que não conseguem se sustentar no decorrer da obra, consegui me envolver com a história de amor de Emma e Dexter. A cada capítulo, torcia mais e mais para que ficassem juntos. Claro que “Um Dia” contava com suas falhas e macetes dignos de qualquer bestseller chinfrim, contudo, tentei ignorar as tolices e simplesmente me entregar à trama, sem ressalvas. O resultado foi satisfatório, apesar de ter me irritado com um desfecho sem graça. Recentemente, mais especificamente na última sexta-feira, “Um Dia”, a versão cinematográfica do livro que acabei de mencionar, chegou aos cinemas brasileiros. Claro que imediatamente corri pra garantir meu assento e, de novo, me entretive com a bela história. O trunfo do livro é o seu enredo. Cada capítulo conta um ano da vida de Emma Marley e Dexter Mayhew, no mesmo dia 15 de julho. A história começa em 1988 e vai até 2011 (no filme, pelo menos), em mais de 20 anos de amizade e amor escondido. [No filme, essa idéia acaba sendo prejudicada pelo formato cinematográfico e muito da história acaba se perdendo. Ainda assim, a trama principal permanece forte o suficiente para tocar o espectador.] Emma é uma mulher cerebral e trabalhadora. Embora sonhe ser escritora, tem de agüentar seu ofício de garçonete num decadente restaurante mexicano. Dexter, por outro lado, é um playboy rico e arrogante. Entre eles há somente uma química inexplicável e uma amizade que se sustenta por todo esse tempo. Secretamente, Emma ama seu melhor amigo e não consegue esquecê-lo, ainda que se envolva com outras pessoas. Por sua vez, Dexter não enxerga Emma como uma mulher, e sim como uma confidente assexuada. Prefere suas festas e bacanais, sacrificando verdadeiras relações em prol da sua juventude desregrada. E assim o leitor/espectador vai acompanhando os encontros e desencontros do casal. Torcendo para que fiquem juntos, mas nunca sabendo o que o próximo capítulo ou cena reservará a tão adorada dupla. O grande suspense da trama se sustenta nesta grande pergunta: quando eles vão ficar juntos? De um lado, a covardia de Emma a paralisa. Ela não confessa seu amor e não luta para deixar de ser apenas a melhor amiga. Do outro, a cegueira de Dexter não o permite perceber que Emma é a mulher ideal para sua felicidade. É companheira, bonita, inteligente e o ama profundamente. E ele também a ama, embora não confesse para si mesmo. “Um Dia” relata a história de Emma e Dexter, mas podia contar também a de outros casais. Durante mais de vinte anos, o público acompanha a vida se fiando, criando reviravoltas, confusões, afastando e aproximando os caminhos de Dexter e Emma. O destino está traçado, o caminho parece óbvio, mas os personagens não aceitam que devem ficar juntos. Na vida real, também é assim. Muitas vezes o contentamento efetivo está bem ao nosso lado, nas pessoas que já acostumamos a considerar como certas. Às vezes, também, o que devemos fazer parece bastante claro. Entretanto, optamos por outro caminho, dando voltas e voltas até chegar no mesmo lugar que alcançaríamos se tivéssemos escolhido o percurso mais simples. E desta forma, acaba-se adiando a felicidade, deixando pra depois o que poderia se ter agora. Não se faz isso de propósito, claro que não. Tudo é feito por alguma justificativa plausível criada por cada um. Para Dexter, por exemplo, ficar com uma namorada fixa não permitiria que curtisse a vida repleta de sexo e adrenalina que pretendia na sua juventude. Para Emma, confessar seu amor por seu melhor amigo, somente faria com que fosse rejeitada. Assim, os conflitos internos vão nos afastando, somando-se às dificuldades da vida. Tudo culmina numa postergação da alegria, que se deixa para depois por uma questão de imaturidade e cegueira momentânea. Contudo, a felicidade chega. Não se consegue evitá-la por muito tempo. O caminho chega ao final, as conclusões certas são feitas e então é hora do real contentamento. Dexter e Emma enfim se olham com outros olhos. O público suspira. Eles são fictícios, nós somos reais. Eles tiveram sua chance, agora é a nossa vez. Por quanto tempo continuaremos adiando a felicidade? Fico por aqui. Até a próxima, leitor.
Obs: Esse texto ficou super brega, eu sei. Mas foi o sentimentalismo de “Um Dia” que me levou a isso tudo. Tente entender, leitor. Obs2: A frase "Não adie a felicidade" foi tirada da personagem de Cathy Jamison (Laura Linney), do seriado "The Big C".
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 18h17
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Não se Esqueça de Mim

Aqui em casa, sempre tocou muita música popular brasileira. Antigamente, minha mãe ditava o que nós iríamos ouvir: Maria Bethânia, Chico Buarque, Lulu Santos, Tim Maia, Marisa Monte. Hoje, levo um pouco mais de vantagem na hora de optar por qual cd escutaremos (simplesmente porque sou muito mais rápido na hora de me apoderar do aparelho de som) e, embora costume tentar encontrar algum artista que minha mãe goste, nem sempre agrado. No fim, acabo escolhendo meus preferidos, ainda que o povo aqui de casa não esteja no mesmo clima que eu. Uma das minhas cantoras brasileiras preferidas é a Nana Caymmi, dona de uma voz única e bem característica. Ela é maravilhosa entoando boleros e músicas românticas, o que faz com que tenha lugar cativo no meu playlist. É só tocar “Resposta ao tempo” ou “Não se esqueça de mim” para o povo daqui de casa revirar os olhos. Minha mãe e meu irmão debocham, dizendo que Nana só é boa como trilha sonora para dor-de-cotovelo. Bobagem. Ainda que a canção seja triste, isto não a diminui. Ao contrário, engrandece exatamente porque a letra parece mais verdadeira e sentida. Em “Não se esqueça de mim”, Nana e Erasmo Carlos, num dueto de cortar o coração, cantam: “Onde você estiver, não se esqueça de mim. Com quem você estiver, não se esqueça de mim. Eu quero apenas estar no seu pensamento. Por um momento pensar que você pensa em mim.” Essa música sempre me inspirou muito e cheguei até mesmo a delinear um enredo de um romance em cima desta. Um relacionamento que acabou, mas cuja lembrança do amor permaneceu, ferindo. Não deixa de ser um clichê, mas isso não tira a beleza da imagem. Ainda assim, deixei a idéia na gaveta, não querendo traçar um caminho com base numa história já contada e recontada tantas vezes. Outro dia, porém, fui lembrar de “Não se esqueça de mim” numa situação inusitada. Estava ouvindo Adele, uma das melhores cantoras internacionais dos últimos tempos, e me veio a semelhança com a canção cantada por Nana. Em seu cd “21”, ela tem duas músicas que falam sobre lembranças. Em “Don´t you remember”, no refrão, ela entoa: “But don´t you remember the reason you left me before? Please, remember me once more” (Numa tradução rápida: Mas você não lembra o motivo pelo qual me deixou antes? Por favor, lembre de mim uma vez mais). E na minha canção preferida de seu repertório, na tristíssima “Someone like you”, Adele canta: “Nevermind, I´ll find someone like you. I wish nothing but the best for you, too. Don´t forget me, I beg” (Numa tradução apressada: Não importa, eu encontrarei alguém exatamente como você. Eu desejo o melhor para você também. Não me esqueça, imploro”). De alguma forma, as duas músicas da inglesa Adele, me fizeram recordar de “Não se esqueça de mim”, de Nana Caymmi. Na verdade, mais especificamente “Someone like you”, traz no seu refrão um sentimento muito parecido com o de Nana, na música que mencionei. Ambas cantoras falam sobre um amor inesquecível, que tornou-se recordação que machuca. E imaginam o homem, alvo de seu afeto, como tendo encontrado outro amor, tendo se acertado, realizado seus sonhos. As duas cantoras sabem disso e não pedem para que ele volte. Ao contrário, Adele deseja até mesmo o melhor pra ele. No entanto, fazem um pedido: lembre de mim, pense em mim. Essa sensação de história inacabada, mal resolvida, sempre gera ótimos livros, filmes, músicas. Exatamente porque tal fato se repete incessantemente na vida real. Namoros que acabaram, mas o amor continuou. Excelentes amigos que perderam o contato. E mais outros tantos tristes exemplos! A vida vai desfiando, cada um toma o seu rumo e vai procurando o contentamento onde conseguir encontrá-lo. Ninguém morre com o fim de um relacionamento e nem deveria. Entretanto, os sentimentos, muitas vezes, permanecem enterrados no peito. Às vezes em carne viva, às vezes adormecidos. E um dia, quando a cabeça parece relaxada, quando um deja vù ocorre de repente, quando uma música especial toca no rádio, as lembranças voltam. Passam na cabeça como um filme antigo, que não se vê há muito tempo, mas que se adora. A história se repete só na mente e é tudo tão triste. Não triste porque passou, mas porque se foi feliz e aquela pessoa não existe mais no presente. Neste momento, é inevitável imaginar como aquele antigo amor ou ex-amigo está, como sua vida desenrolou. Fica se cogitando o porquê do rompimento, e tenta se encontrar uma justificativa para não retomarem a relação. Sente-se saudade, muita. Por isso, quando Nana e Adele cantam: não se esqueça de mim, elas não pedem o amor de volta. Apenas querem ser lembradas como pessoas importantes na vida de alguém. Querem sentir que o que passou entre eles significou tanto para o homem quanto para elas. Desejam saber que o que viveram foi recíproco, impactante e inesquecível. Todos nós colecionamos amigos e ex-amigos, amores recentes e antigos, paixonites que passaram. As memórias, claro, vão se amontoando, criando verdadeiras espirais. Ora ou outra, elas vêm de repente, remexem sentimentos e acordam os sentidos. Mas passam, vão sumindo, adormecem de volta. A vida continua e não dá pra ficar se guiando por páginas viradas. A saudade vem, claro, e ela é boa companhia nos momentos de nostalgia. Dos ex-amores e amigos, a gente se recorda e pede (secretamente) a eles: lembre de mim. Contudo, o momento de nostalgia vai embora e logo é hora de começar o trabalho, o estudo, de conhecer novas pessoas e a manter os relacionamentos que ficaram. Enfim, logo é hora de viver o presente e descobrir o que virá pela frente. O passado, já não o temos. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: A frase “O passado, já não o temos” foi inspirada numa citação célebre do genial Fernando Pessoa. Obs2: Queria ilustrar o post com uma foto da Nana Caymmi, mas todas são tão pequenas. Tive que optar pela Adele mesmo.

Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h29
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Eu Aposto, Nós Apostamos

Em 2011, o Festival de Cannes foi polêmico. Após uma infeliz piada sobre o nazismo, o diretor Lars von Trier foi enxotado da mostra cinematográfica. Infelizmente, o seu filme “Melancolia” acabou chamuscado pela imprensa, levando apenas o prêmio de melhor atriz para Kirsten Dunst, mero troféu de consolação. Lars já provou ser capaz de dirigir filmes difíceis, que provocam na platéia reações diversas. Quem assistiu ao amargo “Dançando no Escuro” e o grotesco “O Anticristo” sabe a que me refiro. Seus longas são capazes de revirar o estômago, causar horror ou até mesmo a piedade. Por ter me frustrado com ambos os filmes que acabei de mencionar, não pretendia dar uma outra chance ao diretor. No entanto, acabei dando. E a experiência foi ótima. “Melancolia” acabou sendo um dos melhores filmes que assisti no ano de 2011, até agora. Porém, que o leitor não se engane! É um filme pesado, provocador, toca em emoções evitadas e é bem parado. Pra começar, o diretor revelou que queria tratar sobre o tema da depressão, visto já ter passado pela horrível experiência antes. No longa, quem sofre da doença é Justine, personagem da sempre ótima Kirsten Dunst. Logo na abertura do filme, o espectador é brindado com o abrir dos olhos cansados e indiferentes de Kirsten, enquanto pássaros mortos caem do céu. Se o leitor estranhou, não se preocupe que explico a sinopse. O filme conta com duas partes. Na primeira, há a festa do casamento de Justine e Michael (Alexander Skargard, o Eric de “True Blood”). Na segunda, as duas irmãs, Justine e Claire (Charlotte Gainsbourg) descobrem que a Terra será atingida por um planeta chamado Melancolia. Cada uma reage de uma maneira, porém dizer mais pode estragar a surpresa do filme. O filme aborda temas que renderiam, no mínimo, uns três posts. No entanto, como não quero me estender muito, vou me ater a um, mais superficial, mas que pode render papo bom pro blog. Falo da primeira parte do filme. Na sua festa de casamento, enquanto Michael, o noivo, parece envolvido na mais singela felicidade, sua esposa sorri ao seu lado. Justine faz isso: sorri, muito. Ouve discursos, faz caras e bocas, tenta ser o mais simpática que pode. Seu marido a segue no aparente encantamento, interage, numa alegria contagiante. Seus olhos brilham. Justine, porém, encontra uma brecha para pedir licença e se ausentar por um instante. Pega um carrinho e vai ao campo de golfe vazio. Fica olhando pro nada, parecendo enfadada. Volta à festa, faz uma social, sorri de novo. E depois foge, vai colocar o sobrinho na cama. Na festa, tira fotos, dança com o marido. Depois vai ao banheiro, toma um longo banho. Volta, sorri, mas é um riso forçado. Cada vez que volta, mais opaca é a sua (falsa) felicidade. E a sua farsa acaba se revelando pouco a pouco. Torna-se óbvia para as pessoas que a rodeiam. Sua irmã, Claire, a procura a todo instante para que ela cumpra com seu papel social. Seu cunhado a alerta de que o casamento foi muito caro, antevendo uma recaída de Justine. Só quem não nota é o feliz noivo. Este sim parece completamente alheio ao que o cerca. O diretor aparentemente o revela de forma quase débil. Seu comportamento é simplório e beira a idiotia. Mas quem não é idiota quando feliz? E, por isso, não nota a complexidade de Justine, bem ali, ao seu lado. Ela demonstra frieza e depressão em tudo que faz, mas seu marido não consegue ver. Mesmo num evento que deveria ser alegre, ela foge do convívio, procura a solidão, se centra no vazio. E ainda sim o noivo sorri, inocente. Embora eu tenha condenado o marido pela sua ignorância dos fatos na primeira vez em que assisti ao filme, hoje procuro tolerar sua ingenuidade. Afinal, ele estava se casando, estava alegre. Sua esposa deveria segui-lo no entusiasmo. Seu único erro, contudo, foi não notar as evidências. O ser humano é demasiado complexo para tentar entender tudo o que o interior das pessoas pode esconder. Muitos psicólogos e psiquiatras já tentaram e cada um de nós tenta, a todo instante, compreender o outro em sua plenitude. Mas quando não se está dentro da cabeça de alguém, nunca se pode prever o que se passa lá. As pessoas mentem (para si e para os outros), traem, sentem. Falam coisas que não queriam ou dizem uma coisa querendo dizer outra. Brigam. Escondem. Confundem-se. Talvez por isso os relacionamentos humanos, em todas as suas formas, sejam tão complicados. Além de juntar pessoas diferentes, com diversos princípios, vivências e manias, tem que se aturar os foros íntimos não revelados. Neste sentido, é natural surgirem as dúvidas e inseguranças. Será que ela gosta mesmo de mim? Por que ela se comporta dessa maneira? Por que ela não entende o que quero dizer? O que ela está sentindo ou pensando? Indagações compreensiveis para quem não lê pensamentos. Enche-se de vulnerabilidade aquele que pensa sobre o assunto. A perspectiva de não conhecer o que o outro sente causa apreensão. Isso porque as pessoas podem não sentir o mesmo que nós, podem estar procurando coisas diferentes ou podem esconder algo importante. Um grande amigo que te considera meramente um conhecido. Um amor que apenas te usa pra transar. Uma noiva que esconde uma severa depressão. E quem haverá de conhecer completamente as pessoas ao seu redor, quando, elas mesmas, podem carregar mistérios insondáveis? O personagem de Alexander, o noivo, talvez tenha padecido da imbecilidade ao não perceber o desamor de Justine. Porém, foi um erro compreensível. Ninguém conhece completamente o outro. Infelizmente, não há fórmulas que driblem o desconhecimento. Enquanto existirem pessoas, existirão relacionamentos. E ninguém poderá alegar que foi enganado quanto a isso. Porque se entregar a uma relação - de amor, amizade ou que seja - é um ato de confiança, uma aposta que se faz. Às vezes acaba-se ganhando um traidor, uma depressiva, um dissimulado. Mas às vezes se ganha um amor ou um amigo pra vida toda. E aí sim valerá a pena todo o esforço e vulnerabilidade empreendidos nessa aposta. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: Esse post não ficou nada próximo do que eu pretendia escrever inicialmente.Às vezes a escrita nos guia por caminhos inesperados.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h17
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Arte, essa paixão

Existem algumas discussões que, embora polêmicas, nunca são travadas. Cada um guarda a sua verdade, embasada em teorias próprias e pronto, não precisa discutir. Assim eu pensava até conhecer, recentemente, um amigo, contestador e amante de argumentação. Com ele, nada fica pra depois. Não basta divergir, deve-se debater a exaustão, até que um convença o outro do seu entendimento. Eu, que nunca fui muito afeito a discussões, estranhei a atitude do amigo a princípio. Contudo, aos poucos fui entrando na brincadeira e hoje consigo entrar numa discussão sem me estressar. Eu e ele divergimos sobre quase tudo. Ele é contra, por exemplo, as cotas nas universidades, as políticas públicas adotadas pelo governo, certas limitações ao mercado financeiro. Eu, todavia, defendo isso tudo e, por isso, os argumentos e contra-argumentos voam em todas as direções. Apesar dos assuntos serem realmente polêmicos e ensejarem boas discussões, resolvi trazer pro post de hoje uma das nossas mais recentes divergências: o conceito de arte. Tudo começou quando eu brinquei que a vida dele poderia ser uma novela das seis, motivo pelo qual ele franziu o cenho, dizendo: “Isso eu não sei. Não assisto novelas. Na verdade, acho a qualidade muito ruim”. Logo depois, revelei-lhe que assistia a novelas sim e gostava bastante. Foi o ponto de partida para toda uma discussão, que rendeu e-mails que inicialmente tentavam, por um lado, louvar as novelas, e pelo outro, rebaixá-las a um produto comercial, imbecilizante, que subestima a inteligência popular. Depois, chegamos a discutir o conceito de arte, cada qual expondo o que acreditava alçar um livro, um filme ao status de uma obra de arte. Eu sempre achei que o conceito de arte era amplo. Se for levado em consideração que um livro, uma pintura, um filme surgem a partir de uma tela em branco, e que é o toque humano, com toda a sua criatividade e inspiração, que transforma aquilo em algo único, então tem-se a arte. Está na capacidade de cada um criar uma obra, com base nas suas aptidões, expondo naquele livro, pintura ou filme o seu foro íntimo. É arte simplesmente porque foi um produto advindo da imaginação do ser humano, tornando-se singular por refletir aquele artista especificamente. Por isso sou mais flexível no conceito da arte do que meu amigo. Eu, por exemplo, acho que uma novela é uma obra de arte. Assim como livros de auto ajuda, filmes de comédia pastelão, pinturas vendidas em praias. Não os diminuo porque vieram do nada, e contaram com dedicação, reflexão e habilidade para serem feitos. Cada qual tem um propósito, todos querem encantar. Se conseguem ou não, isso é outra história. Não estou dizendo aqui, todavia, que inexiste diferença entre os tipos de artes ou obras entre si. Logicamente, sempre existirão bons e maus livros, telas belíssimas e outras horríveis, filmes de qualidade e outros patéticos. Contudo, cabe a cada um escolher o que lhe aprouver, o que lhe encanta e consumir a arte de forma democrática e livre. Defendo que a verdadeira arte tem como fim a diversão, o entretenimento, o encanto. É isso que o público procura quando topa ir a uma livraria ou ao cinema. A arte é democrática o suficiente para abarcar todos os gostos e por isso a amplio consideravelmente. Meu amigo, por outro lado, é da corrente de que a arte só pode receber esta alcunha quando propõe profundidade e entretenimento. Diversão por si só, diz ele, condiz com um livro/filme vazio. Por outro lado, pura reflexão gera o enfado. Para meu amigo, arte é uma experiência que leva a experimentar, aprender, assimilar e refletir sobre algo que nunca teve, ao mesmo tempo que se diverte e se emociona.
A visão dele é bela e considero importante exatamente porque é algo pessoal. Ele, quando consome arte, procura essa fusão, de modo a restringir bastante o seu campo do que seria arte. Assim como meu amigo, eu também procuro esta fusão na maioria dos textos que leio (e escrevo) e nos filmes que assisto. O leitor mais antigo do blog sabe que essa sempre foi minha principal ferramenta: tirar dos filmes/livros um pensamento, uma reflexão. Não é sobre isso que falamos correntemente aqui no “Desfragmentando PH”? Pensando assim, quase mudei meu conceito de arte. Ao invés de aceitar a amplitude que eu propunha, iria acatar a corrente do meu amigo. E, desta feita, passaria a limitar meu conceito ao que efetivamente tinha qualidade e entretinha. No entanto, quando estava para bater o martelo na discussão, encerrando-a de vez, lembrei de “Um lugar chamado Notting Hill”, um dos filmes que mais gostei de assistir. Um longa metragem que segue a fórmula surrada das comédias românticas, com direito a reviravoltas esperadas e correrias do mocinho na reta final. Existe um final previsível. Todavia, emociona, as atuações são primorosas, e o filme se destaca no campo das comédias românticas. Mas e a reflexão, onde está? Sinceramente, não sei explicar. E aí, percebi o furo na teoria do meu amigo. Hoje mesmo, assistindo a simpática novela “A vida da gente”, fiquei grudado na televisão enquanto o romance de Manuela (vivida por Marjorie Estiano, uma das minhas atrizes favoritas) e Rodrigo (Rafael Cardoso) se desfiava. O drama era intenso: Manuela era irmã da ex-namorada de Rodrigo, que estava em coma por três anos. A personagem da Marjorie Estiano, embora amasse Rodrigo, ficava no impasse se deveria ou não entregar-se a tal sentimento. O capítulo de hoje foi o ápice do drama, contando com ternas cenas de carinho e confissões. A novela e o filme com Julia Roberts não me inspiraram a excessivos raciocínios. Não me levaram a grandes experiências emocionais e nem são obras de qualidade absurda. Porém, como não alçá-los ao status de arte, se conseguiram me entreter o suficiente para me marcarem? Para mim, a arte é ampla porque sua democracia abraça diversos gêneros, espécies, gostos. Defendo a novela, o besteirol, as comédias românticas, os clássicos e os filmes de renome. Cada um, leitor/ouvinte/espectador, encontra o que procura. Por isso, meu amigo, quando defende sua tese, não deixa de ter razão. Entretenimento e reflexão é o que ele busca ao abrir um livro ou ligar a televisão. Outros, têm pretensões menores e decerto encontram o que anseiam. Sinceramente, minha discussão com meu amigo não chegou e nem deveria chegar a uma conclusão. O conceito da arte é relativo. No fim, o que importa é sentar no sofá, abrir o livro, seja qual for, ou então ligar a televisão e se entregar. Arte é isso, é entrega solene nas mãos de um autor, de um cineasta, na esperança de que a experiência será recompensadora. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Esse texto ficou fraco, não é?
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h02
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Ficções

Antigamente, havia um desenho bastante simpático chamado “O Fantástico Mundo de Bob”, que contava a história do personagem título, um adorável e criativo menino. Bob, como toda criança, passava o dia imaginando as maiores loucuras, se envolvendo em enrascadas e mal entendidos. Exatamente por possuir uma imaginação fértil, se deixava levar, criando enredos que só ocorriam em sua cabeça. Desta forma, vivia aventuras, conduzindo sempre a história até o clímax, quando se desfazia a confusão e uma lição de moral emergia. Um desenho bobinho, mas divertido e muito apreciado pelas crianças da minha geração. Foi de “O Fantástico Mundo de Bob” que recordei quando terminei de ler o ótimo livro “A Abadia de Northanger” de Jane Austen. O leitor mais antigo conhece minha boa vontade com os romances da escritora. Embora Jane não tivesse uma biografia das mais inspiradoras, sabia escrever como poucos. Traçava personagens bem delineados, construía enredos bonitos e destilava uma sutil crítica social, dirigida principalmente contra a hipocrisia, a superficialidade e a vaidade das pessoas. Seus livros são sinônimo de qualidade. Por isso, foi com grande satisfação que comecei e terminei de ler o ótimo “A Abadia de Northanger”. A obra narra as desventuras de Catherine Morland, uma inocente e tola jovem, que guarda na leitura dos romances góticos seu verdadeiro passatempo. Ela é convidada, por vizinhos, a acompanhá-los a uma visita a Bath, onde tudo começa a desenrolar. Na cidade, Catherine conhece a fútil Isabella e Henry, homem que lhe desperta os mais ternos sentimentos. Pois ocorre que a família de Henry se encanta pela mocinha e a convida para uma viagem a tal “Abadia de Northanger”, local aparentemente tão soturno e aterrador quanto os descritos nos livros lidos pela protagonista. Uma vez em Northanger, Catherine se decepciona pela normalidade que a abadia lhe revela. Não existe o mistério nem os medos que esperava encontrar. De alguma forma, a protagonista desejava ver-se envolvida numa história de terror, e, quando a realidade não supre suas expectativas, ela se frustra. Entretanto, talvez movida pela ânsia de viver uma aventura, talvez pela sua criatividade e inocência absurdas, Catherine começa a estranhar a atitude do pai de Henry, o capitão Tilney. Ao juntar pequenas características e alguns fatos cortados, ela se deixa levar pela sua imaginação, mal interpretando comportamentos e elaborando equivocadas suposições. Pensando em Bob e em Catherine Morland, percebo que as pessoas não escapam muito disso. Eu mesmo, que tenho uma imaginação fértil e uma certa dose de sonho, costumo elucubrar tramas rocambolescas e conjecturar verdades que acabam se tornando reais equívocos. A minha criatividade já me foi (e é) muito útil, principalmente quando resolvo escrever meus romances, contos e até mesmo alguns posts no blog. Contudo, esta não costuma se restringir a ficção posta no papel. Na maioria das vezes, minha imaginação corre solta, liberta, e aí acaba criando tramas que envolvem gente de verdade, fatos que ocorreram. Acontece isso sem controle meu. A cabeça apenas trabalha, se move e eu permito, um tanto absorto nas minhas ficções misturadas à realidade. Ajo assim por querer desvendar o desconhecido. Se, por exemplo, terei um primeiro dia de trabalho no dia seguinte, começo a pensar em como será. Imagino pessoas, chefes, diálogos. Se tenho que, por exemplo, falar algo difícil para um amigo, crio uma cena, imagino diálogos, melhores meios de expor os pensamentos e como estes serão recebidos. Muito disso é causado pela ansiedade, admito. Pior, porém, ocorre quando tento preencher as lacunas de uma personalidade difícil de alguém ou quando desejo compreender as motivações de um ato. Aí, a criatividade voa mais alto, e, baseando-se em comportamentos esparsos e frases picotadas, crio uma história. Quando, por exemplo, leio uma mensagem na internet em que se acredito ver uma grosseria, ou quando alguém diz algo que soa misterioso. Tudo é um gatilho que desperta a irrealidade e, muitas vezes, o mal entendido, a raiva e os sentimentos conflitantes. Honestamente, os que se deixam levar pela imaginação apenas vêem o que desejam ver. Catherine, por exemplo, quis viver numa aventura gótica e, por isso, tachou a atitude do coronel Tilney como nociva. Diferente de Bob, que contava com a infância como desculpa, Catherine apenas possui a justificativa para seus atos na sua inocência e tolice. A ficção criada parecia tão absurda, e sua visão do mundo ao seu redor, tão errada, que ela não pôde captar que a realidade, muitas vezes, é simples. A ansiedade do seu espírito deveria ter sido contida, e seu julgamento moral idem. Isso para evitar que ela se entregasse à pressa em interpretar pessoas e fatos que desconhecia. O que faltou a Catherine foi maturidade. Como toda mocinha sonhadora e inocente, deveria aprender a controlar sua ansiedade e, consequentemente, sua imaginação fértil. Com o tempo, se percebe que a criatividade em demasia, quando usada no cotidiano, apenas leva a angústia do desconhecimento do futuro, e, às vezes, às más interpretações e confusões mentais. O melhor seria sentar e esperar, e aí então compreender todo o esquema e tirar conclusões baseadas em fatos, e não suposições. Retomando o exemplo do trabalho novo no dia seguinte, seria mais razoável aquietar a imaginação, e apenas se preocupar quando o dia estivesse desenrolando de fato. Falo isso tudo e acho graça. De alguma forma, estou me aconselhando. Como Bob e Catherine, eu também me entrego a perigosos devaneios. Com o tempo, porém, vou aprendendo a me controlar. A ansiedade e a pressa em desvendar o mundo é algo típico de adolescentes. A maturidade, contudo, me ensinará a não voar demais quando não devo. Deixarei minha criatividade para as folhas de papel quando quiser escrever. A vida, porém, conta com buracos suficientes para tapar, e eu não devo preenchê-los com conjecturas. Com o tempo, saberei esperar pra ver. Ou, ao menos, assim imagino. Imagino? Droga. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: O post demorou pra ser parido e temo que tenha ficado ruim. Obs: Os livros de Jane Austen, excelentes, ganharam boas e baratas versões de bolso. Tanto o selo Bestbolso, quanto a Martin Claret, contam com boas edições dos livros de Jane a preços módicos. Vale muito a pena.

Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h21
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Não Basta Dizer "Eu te Amo"

Um dos melhores presentes de aniversário que recebi foi um porta-controle remoto feito especialmente para mim. Foi ano passado, quando minha grande amiga Mariana me deu um embrulho com tudo aquilo que eu mais adorava: um filme em DVD, um livro, uma carta, chocolates e um porta-controle remoto. Além de ter o cuidado de me agradar, ela deu um toque especial com aquele pequeno objeto. Era um porta-controle remoto delicadamente pintado de marrom (desculpe o Roberto Carlos, mas é uma das minhas cores favoritas), enfeitado com uma tira onde se vêem fotos de artistas de cinema antigo. Um presente simples, muito bonito e que valeu por mil livros e filmes. Mariana, ao me presentear com o porta-controle, estava me fazendo uma homenagem. Além de ter tido a ternura de escolher um kit com as coisas que mais aprecio, fez questão de me presentear com algo que ela mesmo fez. Logo ela, amiga batalhadora e estudiosa, fez questão de me dar algo que tivesse a minha cara e que decerto lhe custou trabalho. O gesto atencioso não me passou despercebido e nem poderia. Mariana sabe o quanto prezo as pequenas demonstrações de carinho. No post anterior, por exemplo, revelei o quanto gosto das mensagens de aniversário, dos momentos em que os amigos e familiares prestam suas homenagens pelo meu dia especial. No entanto, aniversário é apenas um dia, enquanto as relações interpessoais nascem e perduram por anos (nas melhores hipóteses, logicamente). Não basta haver uma mensagem de ternura por ano, apenas no aniversário. E não estou afirmando, com isso, que tais mensagens devem ser proferidas incessantemente, correndo o risco de soarem repetitivas e chatas. O que estou querendo falar aqui, de forma um tanto desastrada, é que o carinho deve ser constante e deve dizer mais do que um simples “eu te amo”. Nos tempos em que vivemos, frases bonitas como “eu te amo”, “gosto de você” e “te adoro” estão banalizadas, exatamente porque são usadas de forma corriqueira e banal. Ou melhor, são sim utilizadas com o intuito de agradar e de declarar uma afeição. Contudo, na maioria das vezes, vêm despidas do sentimento contido no significado efetivo das palavras. Hoje se ama tudo, se adora tudo e aí, quando um genuíno amor aflora, já não se conta com palavras que expressem a força do verdadeiro sentimento. Por isso, venho prestado atenção não só nas declarações que me dedicam, mas também nas atitudes das pessoas, nos pequenos gestos e nos modos de pensar. Beijos e lindos dizeres já não me suprem como antigamente. Aos poucos, percebo que quero muito mais do que um “eu te amo” ou “te adoro” escrito num papel ou dito numa frase. Vou dar um exemplo de um dia que ocorreu na semana passada. Eu estava no curso, como sempre, quando Yasmin, uma amiga minha, trouxe um embrulho e me entregou. Pra mim?, perguntei, surpreso. E ela sorrindo, assentiu, completando: É. Eu estava numa confeitaria com a minha mãe e trouxe isso pra você. Não tinha cocada, então trouxe pastéis de belém. Você gosta, né? Confirmei que gostava sim e sorri, agradecido. Yasmin não sabia, mas aquele gesto demonstrava mais do que uma boa surpresa. Para mim, os pasteizinhos de belém diziam: Lembrei de você. O leitor talvez ache que estou exagerando, que minha carência beira o cúmulo de se alegrar com pequenas coisas. Mas aqui jaz o mistério dos sentimentos. São exatamente nos pequenos gestos que se demonstra o amor, o carinho, a amizade. “Eu te amo” são apenas bonitas palavras enfileiradas, enquanto a sensibilidade não se pode expressar só desta maneira. Muitas vezes se age no piloto automático. Está-se acostumado a conviver com determinado grupo de pessoas, amigos, familiares. E, de alguma forma, aquela gente faz parte do cotidiano, de modo que já não se precisa fazer declarações de amor nem agir com delicadeza. Acabamos tomando-as como certas. Existe uma expressão em inglês para isso: take for granted. Comumente, os tradutores optam por declarar que tal expressão significa “menosprezar”. No entanto, penso que significa “dar como certo”, seja pessoas ou coisas. Não deixa de ser menosprezar, mas está mais ligado a não dar valor a algo ou alguém que se acha ganho. Minha briga com as pessoas que agem no piloto automático é exatamente esta. Eu não quero estar ganho pra ninguém. E nem desejo tomar ninguém como certo. As pessoas que gosto devem saber dos meus sentimentos não só pelas minhas palavras proferidas de vez em quando, mas também pelas pequenas coisas que faço, que espero serem notadas. Da mesma forma, anseio que a minha preocupação seja partilhada pelos meus amigos. Talvez o que eu tenha escrito até agora não soe como uma novidade para o leitor. Como meu irmão bem disse, isso tudo não deixa de ser um clichê. Entretanto, ainda que seja algo bastante difundido entre todos, vejo constantemente os outros serem diminuídos pela indiferença e pela falta de trato nas relações. A expressão “take for granted” se dissemina entre aqueles que não percebem a importância da amabilidade, da atenção e do carinho. Neste sentido, hoje em dia gosto muito mais dos pequenos gestos do que das grandes provas de amor. A minha mãe, por exemplo, até hoje, quando vê um chocolate recém-lançado nas Lojas Americanas, compra para eu e meu irmão provarmos. Ou, quando ganha algum doce no trabalho, traz para casa intocado, a fim de dividi-lo por três: eu, ela e Victor, meu irmão. E eu pergunto: não é isso uma prova de amor? No fim, o amor - em todas as suas espécies, formas e tamanhos - pode ser demonstrado de várias maneiras. Por bonitas palavras. Por grandiosos espetáculos (como ocorre nas comédias românticas). Por delicados e atenciosos gestos. E às vezes por um porta-controle remoto e um pastelzinho de belém. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Eu sei que esse post ficou carente e brega, mas achei importante escrevê-lo.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h47
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O Meu Dia

Outro dia, Priscilla, uma amiga do curso, veio me contar que queria me dar um livro de presente de aniversário. Contudo, temia meu arrogante julgamento crítico. Respondi para que não se preocupasse com isso. E para tranquilizá-la, completei: Aniversário é só mais um dia. Mais tarde naquela data, esta última frase ressoou no meu ouvido como um zumbido de abelha, incômodo e constante. De alguma forma, eu sabia que não estava sendo sincero. Não me refiro a necessidade de ganhar presentes, mas sim ao aniversário em si. Fui percebendo que ando contando essa mesma mentira todos os anos. Eu a repito incessantemente, sempre que o mês de outubro desponta no calendário e começam a surgir burburinhos entre os amigos. O que você vai fazer? Vamos comemorar? Está animado em ficar mais velho? Quando a saraivada de indagações pipocam, costumo adotar uma atitude blasé. Rebato que não gosto de aniversários, que são chatos e enfadonhos, que não aprecio ser o centro das atenções e que comemorações me afugentam. De algum jeito, parte disso é verdade, entretanto, a indiferença com a data especial nunca permeou meus pensamentos. Honestamente, há algum tempo, aniversários costumavam trazer uma nostalgia cansativa, numa típica síndrome de Peter Pan. Ficar mais velho significava ter que abandonar a leveza da infância e adolescência, e finalmente ter que crescer. Lembrava de anos passados e temia que a felicidade fosse irrepetível no futuro. Mais do que isso: a idade me cobrava algo. Cobrava realizações, responsabilidades e maturidade. Isso me assustava. O número da idade não doía, mas pesava. E por isso vivia dizendo que entrava em crise, quando, sinceramente, apenas estava com medo. Com o tempo, todavia, fui me acalmando mais. Obviamente ainda receio o futuro, mas este não me afugenta e nem sou tão agarrado a Terra do Nunca. A maturidade vai tirando um pouco da ansiedade dos ombros, ainda que não de forma completa. Mas já sei que isso é normal para quem ainda não tem a vida ganha. As crises de outrora, quando surgem, vêm enfraquecidas e passam rapidamente. E mesmo as crises não tiram mais o brilho do aniversário. Obviamente, ainda tenho minhas manias e esquisitices. Uma delas, por exemplo, é não conseguir (e não querer) reunir todos os amigos, de diferentes grupos e épocas, num mesmo ambiente e ter de dar a mesma atenção para todo mundo. Mas até com isso já estou desencanando. O que mais importa para mim, a minha parte preferida do aniversário, eu sempre tenho. Não é a atenção exclusiva nem os presentes, mas sim a demonstração de carinho dos parentes e amigos. Muitas vezes não falamos para as pessoas que nos rodeiam o quão especiais realmente são. Deixamos passar os momentos, exatamente porque esperamos que elas já saibam. Mas no aniversário se diz, se deseja. É o momento para falar: estou aqui, lembrei de você e eu te adoro. Isso pode ser feito por um telefonema, por uma visita surpresa, um e-mail ou um recado do Facebook. São coisas simples, às vezes umas palavras a esmo, às vezes um discurso inflamado. No entanto, fazem diferença porque o aniversariante se reconhece importante e amado. Pensando assim, todo aniversário de um grande amigo - quando raramente os lembro - eu mando uma mensagem ou recado que procuram fugir do trivial. Exatamente porque gostaria de exprimir mais do que desejos de felicidades, e sim o meu real afeto e gratidão por tê-los como companheiros. No meu aniversário, espero a mesma coisa dos meus amigos e parentes. Quero ser lembrado, ciceroneado, querido, amado. É uma carência que surge e se exaure num único dia: 22 de outubro de todos os anos. Ontem completei 24 anos, e como esperado, recebi telefonemas, visitas e recados de pessoas que amo verdadeiramente. Cheguei até a me chatear com a ausência de uns, mas não os culpo. A vida não gira em volta de mim. Por isso, quando eu disse a minha amiga que aniversário é só mais um dia, me senti mentiroso. Para uns, realmente o dia 22 de outubro é apenas mais um dia. Mas para mim, é o meu dia. Em 22 de outubro de 2011, fiz 24 anos. Idade perigosa, diriam alguns. Bobagem. Todas as idades têm seus perigos e todas têm seus prazeres. Ainda bem. Fico por aqui, leitor. Até semana que vem. Obs: O post de hoje, embora tenha sido fraquinho, seguiu a tradição do blog de haver um post de aniversário todos os anos. Obs2: A foto amalucada do post de hoje poderia ter uma legenda, inspirada em Fernando Pessoa: "I know not what tomorrow will bring".
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 13h25
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Quando Você me Quiser Rever

Eu nunca fui muito fã de Chico Buarque. Sempre o julguei desafinado, com uma voz arrastada e nada especial. Assim como Tom Jobim, suas canções são melhor apreciadas quando entoadas por talentosos cantores como Maria Bethânia, por exemplo. Cheguei até mesmo a falar isso tudo para uma professora da faculdade, fã de carteirinha de Chico. Ela recebeu minha afirmação com surpresa, reconhecendo que o cantor não tinha os melhores vocais, mas que era, em sua essência, um compositor nato. Ao que argumentei: Então, por que ele canta? Deixando de lado minha implicância, sei que Chico desperta nas mulheres (e em muitos homens) mil emoções. Existem fãs de todas as idades, com gostos variados, mas que sempre caem de amores por suas músicas, livros e também pelo cantor em si. Ainda assim, é inegável que Chico Buarque faz belas canções, sabendo pôr, em suas letras, dores diversas, poesia e um tanto de crítica social. Ele é mestre em alinhavar construções lingüísticas com boa melodia, criando músicas de qualidade inquestionável. Uma das suas canções que mais gosto é “Olhos dos Olhos”. Obviamente, não está no rol de suas músicas mais geniais. Contudo, há algo nesta que denota potência emocional e tenho certeza de que cativa o grande público. Isso exatamente porque trata de algo corriqueiro nas relações humanas: o rompimento. “Olho nos olhos” conta um enredo aparentemente simples, mas que tem profundidade para quem analisar bem. No começo, a mulher-narradora demonstra descontrole e submissão com o rompimento. Aos poucos, porém, vai revelando outra faceta, antevendo um futuro mais brando, alegre, de recuperação total. E provoca o homem que lhe deixou, desejando um reencontro a fim de revelar o quão bem passa sem ele. Diz que tantas águas rolaram, que teve amores maiores, que está bem. Desejando mostrar-se superior, o convida à sua casa, para os olhos nos olhos. Tudo pra ver como ele se comporta a vendo tão feliz. A meu ver, sempre achei que a música soava como uma espécie de vingança. A melhor vingança para sua dor é revelar ao homem que a abandonou a sua felicidade, a sua superioridade. Quer mostrar que passou bem na ausência dele. Entretanto, não me parece que exista toda essa tranqüilidade nesta mulher. Alguém que ainda precisa provar que está bem, apenas demonstra que não superou o trauma. Esta música, pra mim, significa um grande paradoxo. Uma falsa felicidade disfarçando uma ferida mal curada. Talvez por isso eu ache que a versão cantada pela grande Maria Bethânia case tão bem com a minha visão. A cantora, além de possuir uma voz poderosa, entoa a letra com amargura, com peso. Como se percebe, “Olhos nos olhos” poderia facilmente ser transformada em um bom livro ou filme. Inclusive foi esta a idéia de alguns idealizadores que, desejosos de ampliar o público de Chico Buarque, vêm investindo em releituras de suas obras por diversos artistas, apostando em formatos diferentes. Ano passado, a microssérie “Amor em 4 atos”, foi exibida na Rede Globo, em que cada capítulo era baseado numa canção de Chico. Estava prometido, também, livros de contos inspirados nas músicas do cantor/compositor/romancista. No entanto, a mais esperada releitura era o filme do brasileiro Karim Aïnouz, a quem foi encomendado uma versão cinematográfica da canção “Olhos nos Olhos”. Karim é um diretor de poucos filmes, e conta em seu currículo “Madame Satã”, longa que revelou Lázaro Ramos para o grande público, e a série “Alice”, exibida pela HBO Brasil. Claro que a expectativa era grande e, recentemente, o filme de Karim baseado na obra de Chico Buarque foi exibido no Festival do Rio. A atriz escolhida como protagonista é a razoável Alessandra Negrini, e o título do longa é estranhamente “O Abismo Prateado”. A trama, aliás, me pareceu bem sem graça. É assim: uma dentista que possui uma vida feliz, recebe, por celular, uma mensagem do então marido, que diz que não a ama mais. Daí ela resolve perambular pela cidade, encontrando diferentes tipos e encarando o abismo que o rompimento a levou. Karim disse que, embora preferisse a versão de Maria Bethânia, optou pelo tom menos carregado de “Olhos nos Olhos”, entoado por outra cantora (cujo nome desconheço), para tocar em seu filme. Nem preciso falar que me decepcionei bastante com a premissa do longa, embora não tenha tido a chance de assisti-lo. Talvez quando o filme for lançado oficialmente nos cinemas, eu dê um voto de confiança e vá ver o que Karim preparou para o público. Meu desgosto com a aparente releitura do cineasta, contudo, vem pela grande expectativa que criei em cima da idéia de “Olhos nos Olhos” passar do mundo da música para o cinema. Criei na cabeça um esperado reencontro entre amores do passado, possibilitando um acerto de contas, uma coisa dessas. Pensei, talvez, numa versão mais fiel à letra. O cineasta, porém, teve sua própria visão da canção, preferindo se focar na perda do relacionamento, na dor, no abismo. Não sei como o filme se desenrola, mas pela foto principal que vem sendo divulgada, com Alessandra Negrini ensaiando um sorriso, penso que o fim é otimista. Não sei, terei que ver pra atestar. Por mais que a idéia do filme baseado em “Olhos nos Olhos” seja diferente do que imaginei, creio que eu esteja sendo apenas ranzinza. Karim fez somente o seu trabalho, o seu filme, a sua visão. “Olhos nos Olhos”, a música, permanecerá inalterada. E como toda forma de arte, cada um poderá interpretá-la da maneira que achar melhor. Alguns dotarão a canção de um tom melancólico, outros, de um tom mais forte, vingativo. A arte nunca é uma coisa só. Uma vez liberada ao público, esta toca cada um de uma forma. E cada ouvinte, cada leitor, cada adorador sabe apreciar a arte da sua maneira, e dá a esta a sua cara. “Olhos nos Olhos” de Karim Aïnouz é diferente da “Olhos nos Olhos” ouvida por mim, mas quem disse que isso é ruim? A arte é democrática o suficiente para abarcar todas as visões possíveis. A mesma música pode guardar diferentes verdades, cabendo a cada um escolher a que lhe convém. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Escolhi esta foto do Chico exatamente porque seus olhos ficam mal escondidos pela fumaça. Quer “Olhos nos Olhos” mais poético que esse? 
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 20h48
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Como é Bom ser Criança

Tudo começou assim: um protesto contra a exploração sexual de menores de idade. A idéia era prática e inofensiva e consistia em apenas modificar a foto do perfil do Facebook pela de um desenho animado. Confesso que, inicialmente, me neguei a aderir ao protesto. Não só pelo prazer de rejeitar modinhas, mas também porque não acreditava em sua eficácia. Sou cético o suficiente para desacreditar que pedófilos e seguidores de Michael Jackson abandonariam seus desejos doentios após visualizarem fotos de desenhos animados. Assim como acho pouco provável que o governo se compadeça do problema e comece a investir pesadamente para diminuí-lo. Com esse pensamento, pensei estar imune a tal modinha. Na verdade, a mesma moda já tinha ganho adeptos no Facebook ano passado, por motivos bem menos nobres [isto é, com intuito meramente de diversão]. Assim, eu ainda era Pedro, mesmo dividindo o espaço com Branca de Neve, Seiya, Mickey, entre outros. Até que uma amiga do curso, Ellen, me disse, como se acusando: Poxa, você ainda não mudou sua foto! É um protesto. Era uma cobrança sim, mas não acreditei que fosse uma forma de pressão. Aos meus ouvidos, soou como algo do gênero: Você não vai entrar na brincadeira? E aí, admito, fiquei tentado. Não que eu tivesse sucumbido à moda, contudo sentia que pessoas da minha geração finalmente receberam o passe livre para fazerem exatamente o que queriam: brincar de ser criança. Embora a exploração sexual fosse uma boa justificativa, o jogo já tinha virado outro. Agora o negócio era homenagear a infância, a nossa infância. Os mais velhos passaram a ser o Gato Félix, o Manda-Chuva, o Nacional Kid. As meninas mais jovens apelaram para as princesas da Disney como Cinderela, Ariel, Jasmin, Branca de Neve, Mulan. Os garotos se tornaram Seiya, Hyoga, Goku, o carinha do Yu Yu Hakusho. Eu? Eu poderia ser o Seiya, com seus machucados constantes e sua incansável batalha para proteger Saori. Poderia ser o Doug, sempre com uma lição debaixo do braço. Poderia ser o Ash, acompanhado do chatinho Pikachu. Poderia ser o Aladdin, Quasímodo, o Woody, Jaspion, Power Ranger, poderia ser tantos. Acabei optando por Simba, de “O Rei Leão”, que me levou ao cinema quatro vezes quando eu era garoto. Na verdade, sou todos eles, numa mistura bagunçada e esquisita. A junção desses personagens reflete a minha infância. Infância limpa, simples, que não se retringe a desenhos, mas que passa por eles, se confunde com eles. Meu pai sempre diz que a sua infância, de brincar na rua, de jogar bola o dia inteiro, que era diversão verdadeira. Como se essa época da vida pudesse ser medida como mais ou menos especial. Minha infância de apartamento e cidade grande pode não ter sido tão recheada de aventuras, mas decerto foi especial para mim.Quando se é criança, se diverte com o que tem, e isso inclui uma televisão e bonecos. E nossa, como fui feliz! Guardo mil histórias de criança, minhas e dos personagens de desenhos que assisti, muitos dos quais, aliás, hoje representam meus amigos no Facebook. Vendo ali meus colegas transmutados em desenhos, me sinto numa grande brincadeira. Hoje posso dizer que sou amigo da Mulan e do Hyoga, por exemplo. Para os mais insossos, talvez isso soe infantil e idiota. Mas eu pergunto: não é essa a idéia? Fingir ser criança, mesmo que até o dia 12 de outubro, quando está programado para findar o protesto? Quando Ellen me cobrou a mudança da foto do perfil, me senti convidado a ir ao play. E eu fui, desci, me diverti. Devia isso ao Pedro gordinho e inocente, que comia Mirabel e Toddynho em frente a televisão. E devia isso a mim, Pedro adulto, que ainda olha pra trás e exclama: Como é bom ser criança! E como é bom voltar a ser criança, mesmo que só até o dia 12 de outubro. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Esse post ficou meio ruim ou é impressão minha? Obs2: Só pra constar, sou a favor do protesto contra exploração infantil, tá? 
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h19
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