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Há Vida
Existem sempre bons motivos pra viajar: férias, vontade de descansar, de fugir, adiar problemas.Tudo é válido quando se tem o espírito inquieto e o ímpeto de se lançar em um lugar desconhecido. No filme “O Exótico Hotel Marigold”, uma trupe de ingleses topa fazer uma viagem que, por si só, já é exótica o suficiente: Índia. E como se não bastasse o destino inusitado, o grupo pertence todo à terceira idade. Cada membro do bando escolhe enfrentar tal empreitada por uma razão diferente. Evelyn (Judi Dench), recém viúva, espera encontrar num novo país a salvação pra sua iminente falência. A preconceituosa Muriel (Maggie Smith) apenas viaja a Índia porque precisa, com rapidez, uma cirurgia no quadril. Graham (Tom Wilkinson) deseja reencontrar um amor de adolescente. E ainda há a dupla de solteirões em busca de companhias, e o casal infeliz no casamento. Todos idosos sãos, em plena consciência de quem são e do que querem. Obviamente, a viagem acaba sendo, inicialmente, um inferno para todos eles. Se já não bastasse o caos e o descontrole da Índia, os péssimos aposentos do “Hotel Marigold”, no qual todos ficam hospedados, contribui para a má impressão geral. Logo as confusões vão se avolumando, e o que poderia descambar num péssimo clichê, se revela uma deliciosa comédia. Em grande parte por causa do excelente elenco britânico, e outra pelo roteiro afiado que, pontuado por frases engraçadíssimas, dribla lugares-comuns e surpreende. Um dos grandes acertos foi centrar-se na terceira idade. O que une todos os protagonistas é a solidão que cerca cada um, mesmo os casados. Todos são carentes o suficiente para saber o que lhes falta. E embora tenham receios e apreensões, os idosos sabem que desejam mudança. Mais do que romper a solidão, querem ter o prazer de reencontrar a felicidade, de dissolver mágoas, de se sentirem importantes novamente. Por serem mais velhos, têm a consciência de que passaram mais da metade de suas vidas. Contudo, não estão mortos. E, ainda que lhes falte, em tese, poucos anos até falecerem, irão curtir o que lhes resta do jeito que os aprouver. Num novo país, longe de seus habitats, serão obrigados a se verem sós, a refletirem e a decidirem o que fazer em suas idades. Numa atitude corajosa, mostram que a espera pela morte não é uma opção. Pelo contrário: é a derrota declarada. Desta forma, correndo atrás das suas vontades, o grupo de idosos tem a chance de se libertar de amarras e mudar. Não há obstáculos a segurá-los, nem mesmo a idade. Dali por diante, um recomeço. * Se antes os mais velhos serviam apenas para cuidar de netinhos, hoje eles possuem seus próprios compromissos. São ativos e não receiam arriscar. Se exercitam, possuem dietas balanceadas, têm opiniões e imposições a serem feitas. Não esperam: fazem. Mais do que a experiência de ter passado pelo que nós, os mais jovens, passamos, a terceira idade atual mostra que não existe tempo pra querer a felicidade. Nem pra querer mudar. Que os idosos sirvam de lição. Enquanto há vida, há vida. Esta frase pareceu redundante? Então leia de novo e tire suas conclusões. Fico por aqui, leitor. Até a próxima.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 01h02
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Loucura
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Escrito por Pedro Henrique Gomes às 20h28
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Coração Desacostumado
A consulta correu como sempre. O médico a recebeu com a simpatia que ela se habituara, a examinou e falou as coisas rotineiras que costumavam abordar. Naquele dia, Ada respondeu com frases curtas e trêmulas, mas o médico sequer percebeu. Foi falando com desenvoltura sobre assuntos encadeados, de modo que não pôde atinar para o rumo que a conversa ia tomando. De alguma forma, o longo tratamento fizera com que a dupla trocasse confidências que dificilmente um médico e uma paciente partilhariam. Ainda assim, a relação de ambos foi se desenvolvendo naturalmente, e o falatório que, inicialmente, se atinha a aspectos genéricos de clima e saúde, foi evoluindo para profundezas de sentimentos. Em pouco, passaram a narrar as desventuras naturais da vida, e a trocar reminiscências cada qual de sua história. O médico sentia por ela uma afeição maior do que nutria pela maioria de suas pacientes. No entanto, não se permitia vê-la com outros olhos senão os da profissão e, apesar de guardar estima por ela, tudo descambava na mais inocente das amizades. Ada, porém, ousava pensar diferente. Embora não pudesse e nem tivesse a audácia de tentar ler os pensamentos do médico, passou a ver-lhe com uma atenção especial. O discurso dele era encarado como sabedoria extraordinária, ao passo que sua dedicação parecia refletir mais do que a mera empatia. E foi assim, mal interpretando sinais, que Ada se apaixonou. Tudo começou com fantasias de conversas que não aconteceram. Pouco depois, passou a inventar casos para relatar no consultório. Em seguida, começou a arrumar-se com suas melhores roupas e a mais cara maquiagem. Foi numa loja, comprando um vestido para exibir para ele, que Ada percebeu seu amor. Mas era tarde demais: ele já se encarregara de tomar seu coração. A carência dela permitiu que um amor relutante se apossasse de seus pensamentos. Relutante sim, porque ela não pretendia gostar de mais ninguém. Estava acostumada com sua vida sem grandes arroubos, de modo que esquecera as aventuras do passado para entregar-se resignadamente ao cotidiano sem brilho. Ademais, fora um sentimento que lhe pegara num susto, como se a surpresa lhe descortinasse a vida e ela pudesse enxergar que estava sim fadada às imprevisibilidades do destino. Desde a ciência de sua paixão, Ada nunca mais foi a mesma nas consultas com o médico. Se antes agia com a naturalidade de uma paciente simpática, agora as sensações juvenis lhe subjugavam. Sua boca ficava seca às vezes, a língua parecia se enrolar e a vontade de agradar a levava a situações quase constrangedoras. Imersa na força dos sentimentos, Ada passou a procurar sinais de reciprocidade do médico. Além das similaridades entre eles, quis ver além dos sorrisos e galanteios, desejando pescar algo no qual se agarrar. Uma frase amorosa, um elogio especial: era o que esperava, ansiosamente. Vez ou outra chegou a acreditar ter encontrado o que procurava. Todavia, logo vinha uma frase desconectada do contexto ou um assunto típico de amigos, e, então, ela desanimava, perdida. Secretamente, se perguntava se ele pensaria nela com o mesmo afeto que ela lhe dedicava, e se ela, pra ele, seria uma opção. Embora tomada de desesperança, Ada sofria com a dúvida que os amores platônicos sempre provocam: Poderia ele amá-la? E desta forma, na tortura de pensamentos repetidos, que decidiu que poria fim ao seu sofrimento. Antes sofrer de um amor não correspondido do que um amor sufocado na garganta. Na próxima consulta, ela lhe contaria tudo e poria, nas mãos dele, a opção de tê-la. Ou não. Naquele dia, Ada pôs o seu melhor vestido, o mais bonito batom e foi. O médico a recebeu bem, a examinou, tudo como sempre. Ela, um tanto trêmula, manteve bem as aparências, cerrando em seu íntimo o grande nervosismo que a tomava. Respondeu a todas perguntas que lhe eram dirigidas e conseguiu levantar tópicos interessantes para as conversas dos dois. Quando o médico finalmente sentou-se defronte a sua mesa, sorrindo e se encaminhando para o fim da consulta, ela soube que era chegada a hora. Tensa, mas firme, falou: - Hoje foi a minha última consulta com você. O médico olhou-a com surpresa. - Eu sei que o tratamento não acabou, mas decidi procurar um outro médico para continuar. Ele, atônito, só conseguiu indagar o porquê. E ela, sem hesitações, disparou: - Porque eu me apaixonei por você. O médico, diante do chofre, arregalou os olhos, desviando-os rapidamente para um ponto qualquer de sua mesa. Ficou uns segundos de boca entreaberta, quieto. E, então, num fiapo de voz, balbuciou: - Eu não sei o que dizer. Os olhos de Ada marejaram instantaneamente. Com aquela frase, ele já dera sua resposta. Ela pegou sua bolsa, levantou-se. - Não precisa dizer nada. E foi, pra não mais voltar. Embora tenha conseguido conter as lágrimas no elevador e na saída do prédio, deixou-as soltas na rua. O rosto afogueado, o choro silencioso, o fim de um amor que nunca se consumou. Na dor de amar sozinha, Ada chorou no ônibus de volta a casa. Chorou quando ouviu a música da Marisa Monte tocando no rádio. Chorou enquanto assistia novela. No dia seguinte, seus olhos amanheceram secos. E, ao escolher a roupa para ir trabalhar, optou por um vestido de festa esquecido no armário, esperando uma ocasião especial. Prendeu o cabelo num coque caprichado, usou a maquiagem cara. Arrumou-se para ninguém. Na estranheza de um amor não correspondido e na coragem de confessá-lo, Ada se reencontrara.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 11h33
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Que Cada um Cuide da sua Vida
Há algum tempo, assisti a um filme chamado “Late Bloomers”, estrelado por Isabella Rossellini e William Hurt. O longa é um tanto insosso, e narra os desencontros de um casal cujo casamento dura muitos anos. Por estarem ambos sofrendo uma crise de meia idade, os protagonistas passam a questionar suas vidas, e o casamento acaba entrando neste turbilhão. Lá pelas tantas do filme, os filhos do casal se reúnem sob a justificativa de tentarem reconciliar seus pais. O mais velho diz que os dois separados é um absurdo, e que deve ser traçado um plano para juntá-los novamente. Em nenhum momento, ele cogita o porquê dos pais estarem afastados, assim como não parece preocupado com sua atitude infantil. Esta cena, que era para ser cômica, foi vista por mim com uma indisfarçável má vontade. Eu sempre me irritei com as pessoas que querem mudar a vida alheia, mesmo as fictícias. É claro que os filhos são naturalmente egoístas e egocêntricos. Por serem cercados de mimos, acreditam que tudo na casa lhes pertence, inclusive os pais. E ora por capricho, ora por cego romantismo, sempre aos seus olhos os genitores devem permanecer juntos. Eu, porém, embora ame muitíssimo meus pais, nunca quis fazer prevalecer minha vontade sobre a deles. Nunca desejei manipular quem quer que fosse para que seguisse o que eu achava melhor para sua vida. Se meus pais ficarem juntos, maravilhoso. Se ficarem separados, tudo bem. Anseio, tão somente, pela máxima felicidade de ambos, seja quais forem suas escolhas. Continuar casado ou não sempre foi uma opção a dois, que não admite intervenção de terceiros. Sei que a tentação de opinar ou persuadir os outros é grande em casos como este. De uma maneira geral, todos parecem guardar dentro de si os segredos da alegria alheia. Faça isso, opte por aquilo: todos nós sabemos o que é melhor para os nossos pais, parentes, amigos ou reles desconhecidos. Estando distantes, fazer julgamentos torna-se uma tarefa confortável. E a sentença que proferimos não só parece fazer justiça, como acreditamos ser a escolha certa a fazer. Eu, por exemplo, sempre gostei de distribuir minhas opiniões e críticas aleatoriamente. Mais do que isso, aprecio aconselhar meus amigos e parentes imensamente. E embora possua as melhores intenções, nunca esperei que levassem minhas palavras como verdades absolutas. Pelo contrário, sempre soube que minhas impressões sobre a vida dos outros era restrita ao que me contavam ou que eu observava. Exatamente por não ter a maior sabedoria do mundo, minhas opiniões eram tiradas do que eu pensava ser o certo, ainda que não tivesse como saber. Ou seja, meus conselhos são dados no escuro de quem não tem como prever o futuro. Mais importante: são dados com a liberdade de quem não sente, não arca com nada, só opina. A posição do opinador é confortável porque, apesar de ele desejar controlar a vida dos outros, este não sofre as conseqüências das escolhas alheias. Ele diz: faça. Se a pessoa fizer realmente o que lhe fora aconselhado, o opinador não arcará com ônus nenhum. Mas àquele a quem coube a escolha, sim. A escolha sempre cobra um preço. Muitas vezes, as conseqüências podem ser benéficas. Mas e se não forem? Será que o opinador ficará confortável em saber que a responsabilidade pelos erros de alguém lhe pesa nos ombros? Sei que sempre há algo a ser mudado na vida daqueles que amamos. Uma namorada que não é certa pro amigo. Um parente que escolheu uma faculdade sem futuro. Um abandono de emprego precipitado. Um erro repetido. Conheço a tentação de falar, de persuadir, de tentar mudar. E, neste momento, um conselho é sempre bem-vindo, um direcionamento do que achamos ser o correto. Contudo, não cabe a nós desvendar o segredo da felicidade dos outros. Que cada um a procure como achar melhor. Por isso, em “Late Bloomers”, quando os filhos se reuniram para tentar juntar os pais, estes agiram com um egoísmo execrável. Esqueceram que, longe dali, cada um levava a sua vida, com os seus problemas, com as conseqüências pelos seus próprios atos. Ao invés do controle do destino alheio, deveriam torcer para que seus pais descobrissem, eles mesmos, como guiar suas histórias da melhor maneira possível. Juntos ou separados, que fossem felizes. E que cada um cuidasse da sua vida. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. 
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 01h27
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Luta e Vitória
“Bem, como dizia o Comandante, doer dói sempre. Só não dói depois de morto, porque a vida toda é um doer”. A citação amarga vem de Rachel de Queiroz, e abre o romance “Dora, Doralina”. Embora tais frases se encaixem no enredo de seu livro, não creio que se adequem perfeitamente a vida da maioria das pessoas. Logicamente, existem indivíduos que não parecem viver, mas sobreviver. Principalmente os mais humildes, que recebem a missão de garantir o seu mínimo existencial, batalhando por uma vida digna que se pauta basicamente em prover o seu sustento e de sua família. Estes sim sofrem, porque trabalham muito, se esforçam, padecem, e tudo o que conseguem é meramente levar uma vida retilínea, sem grandes arroubos ou esperanças. Contudo, cada classe social tem a sua batalha pela frente. Se os mais pobres lutam pela subsistência, os da classe média lutam por um degrau a mais. Já que, em sua maioria, têm as necessidades básicas saciadas (com muito suor, diga-se), pessoas da classe média querem o conforto. Eu, por exemplo, sempre tive uma vida tranqüila. Todas as minhas necessidades imprescindíveis foram supridas por meus pais. Não tenho grandes dores a me queixar e nem poderia. Tudo o que precisei foi nascer na família certa, conhecer os amigos corretos e fazer jus aos que meus pais gastaram na minha educação, tirando boas notas no colégio e na faculdade. No entanto, cresci, estou adulto e agora as responsabilidades naturais começam a emergir. Com o fim da faculdade, o mundo se impõe e é hora de recebê-lo. De repente, o trabalho dos meus pais em me sustentar se concluiu e chega a hora de eu sair do ninho, jogar-me pela árvore abaixo, tentar bater as asas e voar. Ao meu lado, reúnem-se amigos, da mesma idade e classe social que eu, que vêm procurando fazer o mesmo. Ainda que alguns já tenham ingressado no mercado de trabalho, todos sonham com o famoso degrau acima. Mais do que a subsistência, - que mal ou bem está garantida desde o nosso nascimento - queremos a comodidade de uma vida tranqüila. De alguma forma, desejamos estar acima dos nossos ancestrais, como uma evolução natural. E ver garantido a concretização dos sonhos mais banais como conhecer o exterior, ter um veículo caro e um apartamento relativamente grande. Queremos mais, e não por ambição desenfreada, mas pela ampliação da visão que temos de uma vida confortável. Isso não é fácil. Para garantir a nossa ascensão e posterior vitória sobre as dificuldades, é necessário muita força de vontade. Romper paradigmas estabelecidos por nossos pais, e ousar chegar além, requer coragem, determinação e luta, muita luta. E a nossa classe social, confesso, nunca foi de muita batalha. Como sempre tivemos tudo nas nossas mãos, nos acostumamos a esperar a vida chegar. Arriscar-se parece um desafio difícil demais pra quem sempre foi cercado de privilégios. No entanto, é preciso mudar, é preciso lutar. Não à toa, jovens como eu, vêm batalhando cada dia mais. Aqueles que já estão trabalhando, anseiam por ser promovidos em breve, dando o melhor de si. Os que desejam garantir um excelente cargo público, se enfurnam nas bibliotecas, comendo livros e sonhando com dias em que o mundo deixará de ser aquele retângulo de paredes. A vontade de desistir é grande. A luta parece árdua demais para quem nunca lutou, e quando o fez, perdeu. Contudo, quando se está para hastear a bandeira branca, pedindo arrego, um estímulo surge. Pra mim, este estímulo foi a minha amiga Mariana Pimenta Braga. Conheci Mariana quando tinha meus quinze, dezesseis anos, logo assim que ingressei no Colégio Pedro II. Ficamos amigos logo nos primeiros dias de aula, e desde então, nunca mais nos afastamos. Fizemos pré-vestibular juntos, mandamos cartas um pro outro durante tempos, nos presenteamos em aniversários e nunca perdemos o contato. Mariana sempre foi um exemplo pra mim. Enquanto eu era um sonhador mequetrefe, Mariana sabia onde e como iria chegar. Seus sonhos poderiam ser menos grandiosos que os meus, mas ela tinha a certeza (que nunca tive) de que iria realizar seus desejos. Antes de nos conhecermos, ela veio de uma escola pública. E no meio da confusão dos alunos, da bagunça generalizada, ela se afundou nos estudos e subiu um degrau, foi pro conceituado Colégio Pedro II. No Pedro II, ela tirava as melhores notas e não poderia ser pra menos. Ela estudava como ninguém. No vestibular, não sabendo o que escolher, optou por estatística, economia e engenharia nas mais conceituadas universidades cariocas e passou em todas. O que mais me impressiona nela é que Mariana nunca se fez de coitada. Quando não tinha computador em casa, ela não reclamava de sua sorte, e, ao invés disso, escrevia cartas pra mim. Quando algum aparelho eletrônico quebrava, Mariana nunca chamava o técnico: ela mesmo descobria um jeito de consertar. Quando não tinha dinheiro pra comprar um livro, ia à biblioteca do Pedro II e alugava o que queria. Sempre economizou o dinheiro que sua avó te dava, sempre fez render as suas posses (e me ensinou a poupar pra ter). Nunca a vi reclamar sequer uma vez de talvez não ser tão rica como os demais alunos do Pedro II. Ao invés de lamuriar, Mariana lutou. Seus pais te deram a subsistência necessária, mas ela nunca foi abastada, e teve que extrair do que tinha para vencer. E embora diga que odeia estudar, foi do estudo constante e dedicado que ela alcançou o que hoje possui. Ela, atualmente, é engenheira da Petrobrás. Recentemente, foi escolhida pra trabalhar no Rio de Janeiro, pertinho de casa, exatamente como desejava. Mariana foi a primeira de minhas amigas a ter conseguido se estabelecer por seus próprios méritos. Agora pode se vangloriar por ter vencido a luta que iniciou ainda muito nova, quando planejava ser importante. Por causa da vitória alheia, e de bons exemplos e conselhos, venho tentando não me deixar levar pelo pessimismo que rodeia meus pensamentos. A covardia em desistir parece ser um caminho mais fácil, entretanto, vejo que não é uma escolha sábia. Sei que há muito pela frente. Canso por imaginar lutas por vir, mas já não posso mais temê-las. Que os sonhos superem o pessimismo e vislumbrem que é sim possível chegar ao destino almejado. Mariana é um exemplo de dedicação recompensada. No fim, bater as asas pode ser uma tarefa inglória, mas a imagem do vôo futuro compensará o esforço empreendido em subir degraus. E para aqueles que estão na mesma situação que eu, desejo empenho. E luta, muita luta. A vitória é mera conseqüência. Obs: Sim, eu sei que o post ficou chato e fugiu do tema.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 10h58
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A Escolha
Eles me ofereceram uma pílula azul ou uma pílula vermelha para que eu escolhesse. Dentre a alienação eterna e a realidade crua, optei por me abster. De alguma forma, estava querendo permanecer em cima do muro. Isso porque conheço que meu coração sempre pendeu mais para a Fantasia, que me é indissociável e povoa a maioria dos meus pensamentos infantis. Contudo, sei também que a Realidade não me pode ser indiferente, exatamente porque me guia pela vida como ela é. Há momentos que a Realidade se impõe e diz: é chegada a hora. E então não adianta tentar se esconder, uma vez que ela te encontra onde estiver. A idade pesa, as responsabilidades se adensam e não dá mais pra escolher o muro. É momento de se entregar ao desafio. A Realidade, como uma força da natureza, imprevisível e inevitável, me agarra e pede uma ação. Parece querer dizer que a Fantasia não pode prevalecer sempre, e o ideal é que se transforme sonhos em palpáveis concretudes. Na pressa, não consegui negar a ordem da Realidade. E, morrendo de medo, sem bússola nem direções, escolhi meu Destino. Pela primeira vez tomei a responsabilidade por meus atos e disse: Quero a cela. Os outros se assombraram. Muitos aplaudiram. Alguns fizeram caretas. Decerto, a maioria se assustou pela coragem. Ir pra cela era uma atitude que iria requer a determinação dos fortes, algo que nunca precisei ter. E assim, tremendo, me tranquei na cela. Grades por todos os lados, sufocante na sua pequeneza. Um desespero inicial me abateu, mas tive que me controlar. Pensei que talvez fosse apenas o temor dos iniciantes, que passaria tão logo tivesse tempo de me acostumar com a claustrofobia. Em cima da minha cabeça, onde deveria haver um teto, existia uma chaminé, que dava lá em cima, no Céu. Lá em cima, tudo era Sol, que brilhava com a liberdade e as promessas de dias melhores. Eu sempre achei que meu Destino era o Sol. Poucos o alcançavam. Muitos caminhos levavam a Ele, mas eu nem sabia qual deles era o mais curto. Achei que fosse a chaminé da cela e por isso a escolhi: por praticidade. Já na cela, muitas foram as tentativas que fiz para chegar ao Sol. Tentei escalar as grades, pular, mas nada parecia ser o suficiente. O caminho até a meta se revelava mais árduo do que imaginei. Mas como poderia ser diferente? Será que nesses anos todos não aprendi que nada tenho de extraordinário, que sou apenas um reles babaca? Que sou, e sempre fui, um ordinário garoto de classe média, como tantos outros, senão pior? E no auge da minha insignificância, me frustrei. Por ter acreditado demasiadamente na minha insuficiente capacidade, me entreguei a conjecturas que talvez nunca alcançasse. O Sol talvez fosse alto demais para mim, afinal. Mais uma vez, sem que eu percebesse, a Fantasia se aproximara de mim e embaralhara meus pensamentos. No desespero, já não sei o que fazer. A chave da minha cela pesa no meu bolso, como se insistisse numa desistência tardia. Devo eu pegá-la, abrir a cela e desaparecer? Será que me perdoarei por não ter tentado mais? Será que me conformarei em não alcançar o Sol? E a Realidade, não me desprezará pela covardia? Não me desprezarei pela covardia? Olho pra cima e vejo o Sol pela chaminé. Inalcançável? Talvez. Pego a chave da cela e a seguro nas mãos. De repente lembro: a escolha! Assim, aperto meu rosto no buraco das grades da cela e clamo por um guarda. Logo surge um homenzinho vestido de branco, com um sorrisinho debochado. Tragam as pílulas e um copo de água!, grito. Farei minha escolha agora!, completo. Em pouco, chega o guarda com o meu pedido. Entrega-me o copo de água, e segura as pílulas azul e vermelha, cada qual em uma mão. A ignorância ou a descoberta. O Sol ou a dúvida. A Realidade ou a Fantasia. Sem hesitar, pego ambas as pílulas e as engulo, antes de ter tempo de me arrepender. Sorrio, conformado. A escolha fora feita. Obs: Eu sei que esse post ficou fraco e meio doido. Mas o blog bem estava precisando de uma chacoalhada, né? Considere como uma loucura eventual.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h10
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Preferências e Sentimentos
Outro dia, no curso, o professor revisitou um velho clichê ao dizer que mulheres são criadas para esperarem o príncipe encantado. A frase dele, embora pertença ao lugar-comum, já não corresponde a realidade. Hoje em dia, as mulheres não se importam em correr atrás elas mesmas dos príncipes, ou então viverem felizes sozinhas. Outras, mais espertas, sabem que o príncipe encantado não existe e se contentam simplesmente em ser felizes no amor. Os homens, por menos que se diga, sonham o mesmo. Ainda que a maioria do sexo masculino não contemple o amor com todas as fantasias dos contos de fadas, chega uma hora que um aconchego e a solidez de um relacionamento fala mais alto. Cada qual, seja quem for, está (ou esteve) a procura. Por princesas, príncipes ou sapos: não importa. Cada um sabe o que é melhor pra si. No filme “O Clube de Leitura de Jane Austen”, a personagem de Emily Blunt, ao comentar o livro “Razão e Sensibilidade”, menciona que a trama principal gira em torno de duas irmãs completamente diferentes, cada uma indo em direção ao que imagina ser o amor. Para quem não sabe, “Razão e Sensibilidade” foi a primeira obra publicada de Jane Austen. Conta a história de duas irmãs muito amigas, chamadas Elinor e Marianne. Elinor é a centrada da família. Calma, recatada e responsável, acaba se apaixonando pelo irmão de sua cunhada, Edward. Edward, por sua vez, é educado, culto e honrado, refletindo valores caros a Elinor. Em contrapartida, tal enredo corre concomitante a história de Marianne. Efusiva, emotiva e impulsiva, Marianne não se contenta com pouco. Quer um homem que não se encaixe na monotonia de uma vida pautada por regras de etiqueta. Para ela, o homem deve ter a alegria em seus atos, e fazer tudo ao seu alcance para que atinja o próprio contentamento. Encontra em Willoughby tudo o que almeja, apaixonando-se. E, no fervor dos seus sentimentos, ignora a devoção de Coronel Brandon por ela. Elinor parece se encaixar com a “Razão” do título, enquanto Marianne, na “Sensibilidade”. Jane Austen, contudo, acaba por desenrolar uma trama que culminará num final um tanto forçado e moralista, porém não menos bonito. Elinor, que sempre se manteve com a retidão do caráter intacta, receberá enfim o amor do covarde Edward. Marianne, que na sua jornada rompeu o decoro da sociedade da época, padecerá pelo infortúnio de procurar um amor aventureiro. Todavia, como se sofresse de uma febre que dói mas é passageira, ela acabará encontrando a segurança de um relacionamento no bom Coronel Brandon. Decerto finais previsíveis, mas condizentes com o moralismo da época em que Jane Austen viveu. De alguma forma, em seu romance primogênito, a escritora prestigiou as relações mantidas com base em um amor sólido, seguro e responsável. Por outro lado, apontou os riscos de uma paixão avassaladora, típica de jovens inconseqüentes. Marianne, na sua busca pelo prazer, acabou agindo de forma precipitada, ignorando a razão e entregando-se sem ressalvas a um homem sem caráter. Por tal impropério, teve de ser punida. Mas, ao se curar da aparente devassidão, foi agraciada com a benevolência da autora, a qual a contemplou com o coração de Brandon. Para Jane Austen, Brandon parece ser ideal: atencioso e bondoso. Não possui a alegria de Marianne, nem sua inclinação para o divertimento puro e simples. E aí pergunto: como podem ser felizes juntos, sendo tão diferentes? Terá Marianne mudado de personalidade ao longo do livro? Ou será que Jane Austen, no desejo de elaborar um final feliz, teve de ignorar particularidades da sua personagem em prol de um bem maior? Como amante de literatura e escritor eventual, sei que os autores devem, muitas vezes, fazer mágica para encerrar um romance. Mas como pessoa capciosa que sou, também conheço que indivíduos não desistem facilmente de suas preferências. Todos nós conhecemos o padrão de beleza, intelectualidade e espírito que nos apraz mais. Sabemos o que nos é atraente, o que nos encanta, o que mexe com nossos pensamentos. Conhecemos o que procuramos. E eu digo o que é: procuramos quem se encaixe em nós. Fazemos isso sempre que conhecemos alguém. Puxamos assunto, disparamos indagações e confidências a fim de criarmos laços. Fazemos, instantaneamente, uma seleção natural de quem desejamos para o nosso convívio social. Um amigo, uma namorada: queremos o clique, a química. Com os amores, não poderia ser diferente. Na busca pela felicidade plena, faz-se uma imagem de quem queremos ao nosso lado. Marianne desejava alguém que fosse descompromissadamente alegre como ela. Elinor, por sua vez, queria um homem sério, porém afetuoso. Na fantasia, criam-se estereótipos de príncipes e princesas encantados. E tais idealizações vão modificando de pessoa para pessoa. Cada um imagina o que merece ou mais do que merece. E então se sonha, bastante. Marianne quis alguém que fosse como ela. Acabou encontrando. Mas na pressa da paixão cega, frustrou-se ao reconhecer que a realidade nunca é tão boa quanto a fantasia. Teve que mudar seus planos, sua visão de mundo para aceitar que nem sempre o amor é aquele que se sonha. O amor pode surpreender, pode estar onde se menos espera. Neste caso, sua felicidade estava com coronel Brandon, bem diferente do que desejava a princípio. Jane Austen, apesar de ter forçado um final feliz para Marianne, foi generosa em dá-la a maturidade necessária para perceber que nem sempre o que desejamos é o certo para nós. Os contos de fadas findam e logo a realidade se impõe, repleta de defeitos. O amor não poderia ser diferente. Príncipes e princesas podem nunca chegar (ou existir). Pessoas podem nunca ser o espelho que procuramos. A busca deve terminar um dia e, para tanto, é imprescindível que se aceite que não há perfeição. E quando tal conceito estiver assimilado, então será possível ver que, às vezes, ali, escondido, pode estar o que sempre se procurou. O amor. Fico por aqui. Até a próxima, leitor. Obs: Foi impressão minha ou eu fugi do tema? Obs2: Ô post melado esse, hein?
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h43
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Tia Detinha e o Jacaré
Tia Detinha gostava de ouvir piadas no rádio bem cedinho. Ela as memorizava e então rumava para suas aulas de hidroginástica. Antes de começar os exercícios, reunia-se um grupo ao seu redor e ela logo se empertigava, relatando a anedota que escutara pouco antes. Gargalhadas eram ouvidas em resposta e Tia Detinha sentia-se orgulhosa, pois sabia que sua função tinha sido cumprida: entreteve. Uma vez, gostou tanto de uma piada do rádio que fez questão de espalhá-la para todos os amigos e familiares. Era mais ou menos assim: havia uma festa no Céu e todos os animais foram convidados. O leão, a girafa, a cobra e outros bichos se regozijaram com a oportunidade de conhecer o Paraíso. Contudo, no dia da festa, São Pedro postou-se diante do portão e emitiu a ordem do Divino: Só entra quem não tem boca grande. Imediatamente, todos os animais olharam para o Jacaré que surpreendeu-se com a notícia. De ombros murchos, o Jacaré apertou a boca o máximo que pôde e num murmuro, falou: Injustiça! Nem só de piadas Tia Detinha vivia. Ela também sabia cozinhar como ninguém. Além de fazer o melhor feijão que existe, tinha habilidades culinárias invejáveis até para os melhores cozinheiros. No dia 25 de dezembro, fazia questão de fazer o melhor bacalhau, a melhor carne de porco e não se sentia satisfeita até que os convidados a elogiassem como se deve. No meu aniversário, ela, sem tardar, telefonava para mim. Bem cedinho, nem esperava eu falar alô e já irrompia num palavrório de parabéns e felicidades. Eu que tinha que reconhecer sua voz, agradecer e, ao final, pedir a benção. Porque benção ela fazia questão de dar. E com razão. De alguma forma, ela sempre fora minha avó do coração. Sempre que eu ia fazer festa de aniversário, Tia Detinha se oferecia para fazer o bolo. Bolo do coco, que ela sabia que eu adorava. O bolo macio, o recheio de doce de leite: tudo maravilhoso. E quando ia elogiar, ela contava que pedira à minha avó Bernadete, já falecida, que a auxiliasse. Dizia assim: “Ô, irmã, me ajuda nesse bolo porque é pro seu neto. Pro nosso neto”. E tal pedido já servia para que o doce fosse a sensação de qualquer festa. Tia Detinha foi quem me deu meu primeiro banho. Foi também quem dormiu com minha mãe no hospital logo assim que nasci. Desde novo ela já me rondava, protegendo, amparando. E não sou só eu que devo a ela. Toda a família e amigos devem muito à tia. Ela não esquecia o aniversário de ninguém, não deixava de nos convidar pro Natal, sempre se preocupava com o problema alheio. Era uma daquelas pessoas cercada de gente, já que seu amor transbordava em todas as direções. Pessoas gravitavam ao seu redor, e isso gerava uma união maior até mesmo entre famílias distantes. Ela era o centro de uma teia de relações interpessoais. Ultimamente, em seus últimos anos, Tia Detinha me fez chamá-la de Vó Detinha. Eu, que não tive a oportunidade de conviver muito com a minha avó paterna e nem com minha avó materna, sempre tive na tia esta figura. E ela me recebeu de braços abertos, sempre com o seu carinho, atenção, torcida. Sempre fazendo questão de terminar nossas conversas com “Deus te abençoe, meu neto”, mesmo quando eu esquecia de pedir a benção. Tia Detinha morreu hoje, após a luta de uma dolorosa e longa doença. Injustiça!, dirá o Jacaré e os que têm boca grande. Mas Tia Detinha não ouviu. Passou pelo portão, por São Pedro e foi seguindo. Está, agora, na festa do Céu. E pra terminar, como não podia deixar de ser. Pela última vez: À benção, Vó Detinha.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h22
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Eu, Eu Mesmo e meus Amigos

Já diziam Tom Jobim e Vinícius de Moraes que é impossível ser feliz sozinho. A frase, embora bem encaixada em “Wave”, sempre me despertou as maiores desconfianças. De algum modo, acredito que a solidão não exclui, necessariamente, a felicidade. No filme “Sexo sem Compromisso”, a protagonista Emma (Natalie Portman) pensava como eu. Médica, independente e bonita, ela achava que o homem só lhe fazia falta na cama. Por isso, arranjou em Adam (Ashton Kutcher) o parceiro ideal para o sexo sem compromisso do título. A hora que chamasse, e ele respondesse, ambos se encontrariam a fim de terem as mais agitadas noites (e madrugadas). Claro que se trata de uma comédia romântica e o moralismo habitual sempre acha um jeito de falar mais alto. Lá pelas tantas do filme, Emma descobre-se apaixonada por Adam. E, avessa a relacionamentos sérios, acaba repelindo-o por medo de se envolver. No fim, como todo água-com-açúcar, a mocinha acaba atestando que a frase de Tom e Vinícius é, de fato, verdadeira. Entrega-se sem ressalvas ao amor. Felizes para sempre. Em que pese eu costume apreciar tramas românticas, nunca me deixei levar pelo senso comum de que a solidão é uma mancha na vida de alguém. Solidão é vazio, pensam alguns. E, exatamente por temerem ficarem sozinhas, as pessoas parecem dispostas às maiores loucuras para encontrarem companhia. Algumas chegam a se anular diante de uma namorada ou um amigo. Não têm vontade própria, só o que sabem é obedecer e concordar. Uns toleram maus relacionamentos, pensando que é melhor agüentar a chatice alheia do que permanecer só. Outros, ainda, crêem que não são bons o suficiente para arranjar alguém melhor, se amarrando ao que têm ao invés de buscar o que lhes apraz realmente. As atitudes destas pessoas parece atestar que elas acreditam na frase com a qual iniciei o post. Melhor tentar a felicidade com alguém do que me entregar ao desespero da solidão, pensam. Ainda que as respeite, penso diferente. Defendo que, primeiramente, os indivíduos devem se reconhecer importantes, suficientes. E só então procurar se relacionar com os outros. Isso se faz pouco a pouco, admito. Ir ao cinema sozinho, ler um livro, fazer um esporte (eca!), assistir a um espetáculo, ir a um restaurante, cuidar da casa. Todas estas atividades podem ser feitas sem companhia e serem igualmente divertidas. Ninguém vai morrer se os amigos não toparem ir ao cinema contigo. Vá sozinho. O que quero dizer é: você não precisa de ninguém para se entreter. Sei que, falando assim, corro o risco de parecer auto suficiente. Pois digo: não sou. Contudo, acredito que um relacionamento igualitário e saudável - seja qual for a sua natureza - passa pela necessidade de ambas as partes saberem que, caso não dê certo, a vida continua. É possível ser feliz sozinho. Tal premissa é imprescindível para dar liberdade às relações. Ninguém precisa ficar amarrado a uma amizade que não faz bem ou a um namoro que não vai a lugar nenhum. Liberte-se. Reconheça-se importante, independente. Desta forma, no seu próximo relacionamento, terá a consciência de que a responsabilidade por fazer dar certo é dos dois. Esforços e concessões mútuas são precisos, mas sempre dentro da razoabilidade. Sei que o leitor deve estar achando que, aqui, estou gritando a liberdade plena, dizendo que não preciso de ninguém. Isso não é verdade. Sei que muito da minha felicidade passa pela minha família e por alguns amigos. Dia desses, escrevendo para uns amigos, me encontrando com outros, percebi que minha alegria está com eles. Quem seria eu sem pessoas tão especiais, que me entretêm, amparam e me agüentam? Decerto não seria o mesmo. No entanto, posso garantir que nenhum amigo, nenhum familiar me pesa. Não mais. Hoje me permito a liberdade de guardar apenas os queridos, os que me fazem bem. Isso porque mereço estar diante de grandes pessoas, assim como espero ser importante para os que gosto. Entre nós existe uma certeza: nossa ligação transcende a necessidade de ter companhia. Nossa ligação é escolha e afeto. É liberdade de não precisar estar juntos, mas querer estar. Esse discurso todo só pra dizer que é sim possível ser feliz sozinho. Mas é sempre melhor ter alguém com quem compartilhar a felicidade. Principalmente quando esse alguém é uma pessoa especial. Fico por aqui, leitor. Até a próxima.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h04
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Tempo Tempo Tempo Tempo
O tempo é caprichoso. Não espera ninguém e vai passando, insensível. Faz morrer relações moribundas, leva embora gente querida, deixa saudades. Mas também ameniza dores, permite que novos sentimentos surjam, provoca mudanças. Existem pessoas que tomam o tempo como inimigo, tentando a todo custo apagar suas marcas. Uns se enchem de plásticas; outros se comportam como adolescentes tardios. Alguns, ainda, pegam o passado e o enaltecem a ponto de não viverem o presente como se deve: sem amarras. Tudo isso, porém, não tem sentido. Ninguém consegue prender o tempo, porque só o que ele sabe é passar. Quem o aceita e reconhece as benesses que este traz, torna-se melhor. Afinal, o tempo muda, e nós mudamos juntos com ele. O Pedro de hoje não é igual o de anos atrás, assim como o Pedro do futuro dificilmente será como o atual. Como o Charmander vira o Charmeleon e depois o Charizard, as experiências se acumulam e geram o amadurecimento. Lendo posts antigos, vejo o quanto modifiquei ao longo dos anos. Hoje já mitigo muitos erros que considerava imperdoáveis antes, não carrego tantos preconceitos, tenho vivências que me acrescentaram. Não sei se melhorei, mas decerto mudei. E não tenho dúvidas de que ainda tenho muito o que trilhar. A evolução é natural com o tempo. E não digo apenas da simples cartilha escola-faculdade-emprego, mas também a evolução emocional gerada pelo acúmulo de decepções e vitórias ao longo da vida. Cabe a cada um perceber o quanto o tempo nos marca, não apenas fisicamente, mas também em quem somos. O tempo reflete nossas escolhas e comportamentos. Reflete nossa evolução. Em “A Vida da Gente”, excelente novela que chegou ao fim nesta sexta-feira, o tempo foi homenageado. Desde a canção “Oração ao Tempo” entoada nos créditos, ao fim da trama, tudo foi calcado na evolução daquelas personagens. Quem esperava grandes discursos e declarações de amor no fim, ficou decepcionado. Ficaram tristes também os que torciam pelo final feliz da tenista Ana (Fernanda Vasconcellos) ao lado do arquiteto Rodrigo (Rafael Cardoso). A novelista Lícia Manzo preferiu entregar à Manuela (Marjorie Estiano, uma das minhas preferidas atrizes) o coração do arquiteto, embora tal ato tenha desagradado a maioria dos telespectadores. Não poderia ser diferente. Lícia preferiu dar ao tempo aquilo que lhe pertencia. “A Vida da Gente” retratou a paixão adolescente entre Ana e Rodrigo, o que gerou uma filha, Júlia. Após um acidente terrível, Ana ficou em coma por mais de cinco anos, motivo pelo qual Manuela, sua irmã, tomou para si o papel de criar esta criança. Naturalmente, sem qualquer pieguice ou vilania, Manuela acabou se apaixonando por Rodrigo e, por isso, casou-se com ele. Passaram anos juntos, até que Ana acordou do coma. Uma vez desperta, Rodrigo ficou balançado entre a paixão juvenil vivida por Ana e o amor construído com Manuela. Sobre este triângulo amoroso, construiu-se a lacrimosa trama. O capítulo de sexta-feira mostrou o desfecho destas relações. Rodrigo acabou optando por ficar com Manuela. Isso porque foi com ela que ele formou uma família, foi com ela que ele tornou-se um homem, repleto de direitos e obrigações. O amor consolidado e duradouro foi nutrido com base na família formada por ele, Manuela e Julia. Por outro lado, Ana era sim uma forte paixão. Uma mulher que mexeu com ele, gerou sua filha. Alguém com quem ele tinha um relacionamento mal resolvido, inacabado. Ele não teve a chance de namorar longamente Ana e isto gerou uma dúvida cruel. A quem ele amava de verdade? Embora Rodrigo nutrisse paixão por Ana, foi com Manuela que evoluiu. Não adiantava relembrar bonitas cenas do passado, porque ele já não era o Rodrigo de outrora. Ele era um novo Rodrigo, que passou por experiências dignas de pai, de marido, de homem. Ana representava quem ele foi, Manuela representava quem ele é. A escolha dele foi madura. O tempo é assim, passa, e não olha pra trás. Olhamos nós pra trás, de vez em quando. Mas não podemos ficar assim por muito tempo ou senão tropeçamos, caímos. Resta apenas seguir o tempo, passar junto, guardando o que pudermos, acumulando vivências. E evoluindo, sempre evoluindo. Tempo tempo tempo tempo. Obs: Sei que o blog ultimamente ficou com cara de “Revista da TV”, mas prometo que isto vai terminar. Tente entender, leitor. Vou onde estão a inspiração e o sentimento. 
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 21h25
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Pra que o chilique?
O ponto alto do Carnaval de 2012 não foi a exuberância das passistas nem a multidão que seguiu os blocos pelo Rio de Janeiro. O mais marcante foi o homem que invadiu a cerimônia que anunciaria a escola de samba paulista vencedora do Carnaval e rasgou as notas dos jurados na frente das câmeras. A cena pegou todos de surpresa, e apesar de ter sido encarada com bastante severidade pela polícia, o caso virou piada na boca dos foliões. O mau perdedor clássico, tacharam alguns. Embora haja rumores de que o ato de rasgar as notas foi orquestrado por mal intencionados, o mais razoável é supor que simplesmente o homem não sabia perder de forma digna. Pelo que os jornais anunciaram, ele não estava ligado a direção de nenhuma das escolas e era, tão somente, um mero torcedor. Então pra que o chilique de estragar a festa dos outros e atuar de forma tão infantil? Provavelmente, este torcedor apenas desejava que sua escola de samba vencesse na disputa. Contudo, sua atitude apenas demonstrou o egoísmo e a maldade de macular o esforço de quem, assim como ele, apenas estava ali pra torcer e, talvez, comemorar um título. Creio que ele não fosse auferir qualquer lucro com seu ato de vandalismo, assim como tenho certeza de que não sofreria prejuízos financeiros caso sua escola de samba perdesse. Concluo, desta forma, que o que o motivou foi apenas a revolta de achar-se injustiçado, dando-lhe o direito de atuar como um vilão de ocasião. Outras torcidas e outros times já se comportaram do mesmo modo que o paulista infantil. Apesar de não contarem com notas de jurados para rasgar, se baseiam em seus amores desmedidos para difamar e até mesmo humilhar seus pseudo inimigos. As rivalidades são antigas. Vasco e Flamengo. Fluminense e Flamengo. Flamengo e o resto do Brasil. Brasil e Argentina. Jennifer Aniston e Angelina Jolie. Freud e Jung. A cada dia a mídia cria mais inimigos e o povo embarca nessa, ansioso por tomar a briga alheia pra si. Quem assistiu ao filme “Hooligans” sabe como as torcidas organizadas inglesas são capazes de serem cruéis umas com as outras, marcando brigas violentas para provar sei lá o que. E nem precisa ir tão longe. Vez ou outra são publicadas reportagens noticiando mortes de torcedores em estádios. Outro dia, lendo o jornal, me deparei com uma notícia bastante curiosa sobre a mais nova rivalidade. Aparentemente, até a novela “A Vida da Gente” tem atraído uma multidão afeita a bate-bocas. A trama termina esta semana e já movimentou grupos de discussões acalorados, ansiosos por determinar o fim que ganhará Ana (Fernanda Vasconcellos) e Manuela (Marjorie Estiano). Uns acham que Ana é merecedora do final feliz ao lado de Rodrigo (Rafael Cardoso). Outros, defendem que Manuela é quem deveria ficar com o engenheiro. A divergência entre o público não geraria grandes desavenças, se não fosse o fato das duas personagens serem irmãs, amigas e mocinhas. Sim, nenhuma delas é vilã, e ambas agem sempre com retidão e carinho uma com a outra (na maioria das vezes, claro). No entanto, ainda assim, os telespectadores se dividiram e, surpreendentemente, uns passaram a guerrear com os outros. Tomando a ficção como realidade, algumas pessoas começaram a apontar características depreciativas das personagens, citando cenas, frases, atitudes que nunca deixaram de ser inventadas pela autora da novela. Queriam, desta forma, ver prevalecer suas vontades, catapultando a irmã favorita como sendo a perfeita para merecer o amor do personagem de Rodrigo. Embora eu também tenha a minha irmã preferida, não acredito que tal discussão merece qualquer tipo de mérito. É o tipo de briga que apenas serve para a confusão e distribuição de insultos. Foi pensando desta forma que hoje passei boa parte da manhã matutando sobre o que leva um indivíduo a torcer por algo ou alguém se nada pode haver em troca. Pra que morrer por um time de futebol se são apenas os jogadores que ganham para estar ali? Pra que arriscar ser preso por uma escola de samba? Pra que ser insultado e brigar por causa de uma novela? Pra que gastar dinheiro votando pra alguém sair do BBB? Tais indagações tentaram me levar a respostas fáceis. Achei que as pessoas agiam desta forma por uma paixão que cegava. Talvez por identificação. Quem sabe por querer suprir lacunas afetivas. Ou então por desejar fazer parte de algum grupo. No fim, me rendi, não sei o que levava a tanta insensatez. Acredito que torcer por algo é natural. Todos queremos ver prevalecer as nossas preferências. É bom ver o Fluminense vencer a Taça Guanabara. Ver o filme predileto ganhar o Oscar. Ver a Manuela terminar o lado do Rodrigo em “A Vida da Gente”. Entretanto, se nada disso acontecer, que se dane. O homem que rasgou as notas dos jurados o fez por infantilidade, egoísmo e vilania. Ele deveria saber que ano que vem haverá um novo desfile, uma nova oportunidade para a sua escola de samba vencer. E se não vencer, haverá o Carnaval de 2014, 2015, intermináveis carnavais. Então pra que o chilique? Torcer é lembrar que não somos nós que estamos lutando, mas os outros. Embora nos entreguemos a batalhas alheias, a vitória ou derrota não depende das nossas preces. Depende de outras pessoas. E se estas fracassarem, tudo bem. Sempre haverá uma nova luta pela qual torcer. A vida continua. Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: Sei que esse post ficou sofrível. Foi difícil escrevê-lo, viu? Compenso semana que vem.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h02
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E se

Quando assisti ao trailer de “O Homem do Futuro” no cinema, logo achei se tratar de uma versão tupiniquim de “De volta para o futuro”. Assim como “Se eu fosse você” aposta numa fórmula batida de comédia, pensei que “O Homem do Futuro” iria copiar algum enlatado americano. De certa forma, até estava correto. No entanto, confesso que me surpreendi com o longa, que conseguiu me divertir. Entre vários clichês e lugares comuns, o diretor e roteirista conseguiu elaborar um filme leve, com certo frescor. Maior surpresa de “O Homem Invisível”, entretanto, é constatar que este é muito mais próximo de “Efeito Borboleta” do que de “De volta para o futuro”. Em “Efeito Borboleta”, o protagonista vivido por Ashton Kutcher possui o dom de viajar no tempo, podendo reviver épocas de sua vida e modificá-las. É só abrir seu diário, ler trechos do passado e pronto, já vira criança, adolescente. Por saber como sua história transcorrerá, consegue mudar aquilo que não gosta, evitar traumas e dores. Quando volta para o “futuro”, contudo, vai percebendo que sua vida - e daqueles que o rodeiam - mudou completamente. Aos poucos nota que, conquanto suprima sofrimentos do passado, ele não tem como controlar o futuro, estragando o destino alheio. Em certa parte do longa, por exemplo, o personagem de Ashton consegue fazer com que o pai pedófilo interrompa os abusos perpetrados contra a filha. No futuro, porém, embora a filha tenha crescido otimamente, seu irmão acabou se tornando um delinqüente, já que se tornou alvo do ódio reprimido do pai. Em “O Homem do Futuro”, o enfoque está na comédia. O enredo é mais ou menos assim: João (Wagner Moura) acaba viajando no tempo, indo parar no mesmo dia em que perdeu a virgindade e acabou sendo humilhado pelo amor de sua vida (personagem de Alinne Moraes). Tentando evitar o trauma, João faz de tudo para que sua versão jovem reverta a situação, o que culmina numa mudança radical do futuro. Uma mudança pra pior, é claro. No fim, acabam ambos os longas tratando do mesmo tema, ainda que possuam propósitos diversos. Enquanto um é despretensioso, o outro carrega o peso de fazer um thriller sério. O ponto em comum entre tais longas é tratar da vontade de todos nós de voltar e refazer os erros do passado ou apenas apagar sofrimentos, traumas, pessoas. Cada um sabe onde dói e qual a intensidade disso tudo. Seria natural desejar refazer o que não se gostou, tomar escolhas que evitou, fazer tudo diferente. Quem sabe assim a vida melhoraria. É o famoso “E se” que se gosta tanto de repetir, ainda que secretamente. E se eu estudasse mais? E seu eu tivesse ficado com ela? E se eu fosse corajoso o suficiente para agir como devia? Perguntas sem resposta que constantemente perpassam a mente, atormentando quem já não está bem. Com o tempo, porém, tais indagações vão adormecendo, até quase sumirem no inconsciente. Claro que elas voltam, às vezes poderosas o bastante para incomodar. Mas aí são apenas por um curto lapso temporal, em momentos de tristeza, de crise. Logo, logo passam de novo e a rotina recomeça, não dando tempo para agitações. Pensamentos como esses realmente são tentadores. Mudar o passado pode ser a chave necessária para a felicidade, acham alguns. Apagar dores e sofrimentos pode constituir um alívio no futuro. Entretanto, a impossibilidade de voltar apenas demonstra a infantilidade de tais desejos. Não dá pra retornar pro passado, então pra que sonhar com máquinas do tempo? Os traumas, sejam quais forem, são inerentes da vida, e, ouso dizer, necessários. E se está infeliz no presente, não adianta reclamar do que passou, maldizer o motivo das dores. Deve-se mirar o futuro, sempre. E aí sim traçar novos planos para realmente alcançar a felicidade. O presente, diferente do passado, é mutável e talvez este seja o modo de evitar sofrimentos futuros. “E se o passado fosse diferente?”, perguntaram os personagens de Ashton Kutcher e Wagner Moura. A resposta, logicamente, não foi satisfatória. No fim, tiveram que deixar as máquinas do tempo de lado e amadurecer. Eles ficarão bem. Ao menos já sabem que o futuro - este sim - lhes pertence.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 11h50
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Aniversário do "Desfragmentando PH" - Os 10 Melhores Posts em 5 anos

Parte 1 Finalmente, chegou o dia. Hoje o “Desfragmentando PH” está em festa. Pudera! Completar cinco anos de existência é um marco para qualquer blog, ainda mais para um humilde e informal blog como este. Eu, como autor preocupado, não poderia deixar passar a data em branco. Sentia que era meu dever fazer uma festa, convidar o leitor, incitá-lo a comemorar comigo dia tão especial. Como toda festa que se preze, queria que o “Desfragmentando PH” tivesse bolo, presentes e amigos. O bolo, infelizmente, terei que ficar devendo, visto que a Internet impõe esse distanciamento físico entre nós. Contudo, sei que o “Desfragmentando” conta com fiéis e atenciosos leitores, que costumam acompanhar meus escritos semanais. De amigos, portanto, o blog está repleto deles. Quanto aos presentes, temo não ter muito a oferecer. O que preparei para o post especial de aniversário foi tão somente uma seleção pessoal de dez dos meus preferidos textos veiculados no “Desfragmentando”. Admito, porém, que foi extremamente árduo escolher quais posts mereciam estar no ranking dos dez mais. Ao ler posts antigos, fiquei muito indeciso sobre qual deles possuía uma qualidade acima da média. Mais importante, fiquei refletindo sobre qual post o leitor iria querer encontrar por aqui, quando deparasse com a minha seleção. Cheguei até mesmo a indagar para alguns amigos quais textos eles esperavam ver aqui no aniversário do blog. Um deles suscitou “Não se esqueça de mim”, o outro “Finados” e o último “Máquinas do Tempo”. Foi quando percebi que não adiantava tentar agradar a todos. Assim como cada um tem seu filme, livro, cantor prediletos; eu também tenho os meus. Desta feita, decidi que deveria simplesmente selecionar quais posts me agradavam mais. Segui minhas próprias percepções, tentando dosar temas recorrentes e importantes pro blog. Foi difícil chegar a uma lista final, principalmente porque tive que vetar vários posts que gostava muito. Todavia, creio que alcancei um ranking eclético o suficiente para aprazer os leitores mais ecléticos. A seguir, os 10 posts mais marcantes nestes 5 anos de “Desfragmentando PH”, em ordem decrescente: 10º lugar: “Caro Ex Amigo” Sobre o que é: Post em forma epistolar em que eu ponho fim a amizades moribundas e passadas, me despedindo (com amargor) de ex-amigos que não contribuíram para a continuidade da relação. Por que merece estar na lista: Além de possuir um tema caro, que é a necessidade do trato mútuo nas relações interpessoais continuativas (nossa, pareceu termo de Direito isso, hein!), o post é carregado de uma amargura pouco vista no blog. Considero-o como um post divisor de águas no “Desfragmentando PH”, uma vez que foi o primeiro texto em que não me preocupei em agradar ninguém nem em trazer temas intrigantes. Apenas escrevi o que estava sentindo e o que defendo até hoje. O único defeito é a má escrita e alguns erros que identifiquei. Releve, leitor. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2007-06-17_2007-06-23.html 9º lugar: “Sem lágrimas” Sobre o que é: Post em que recordo com pesar de um tio-avô muito querido, recém falecido na época em que escrevi esta homenagem a ele. Por que merece estar na lista: Trata da morte de forma dolorosa, porém doce, a meu ver. Dosando imagens de infância e a culpa por não ter chorado, tentei criar um post terno e associável com o leitor, que, decerto, já perdeu alguém que amava. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2008-08-17_2008-08-23.html 8º lugar: “Recados à Lua” Sobre o que é: Na forma de recados curtos copiados do Orkut, exibo textos enviados à minha amiga Lua(na). Em tom informal e com linguagem de Internet, formam-se pequenos monólogos epistolares. Por que merece estar na lista: Embora pareça um post muito pessoal, os pequenos textos publicados versam sobre temas que adoro como saudade, solidão, carinho, amizade. O tom informal e carinhoso foram preponderantes para que eu pusesse o post no ranking. Além disso, o texto parece congelar o tempo, refletindo o Pedro do longínquo ano de 2007. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2007-11-25_2007-12-01.html 7º lugar: “Cadê a procuração?” Sobre o que é: Post que reflete sobre o preconceito contra os homossexuais, praticado essencialmente por falsos religiosos, que se acham no direito de julgar os outros. Fazendo comparações com a minissérie “Hilda Furacão” e o filme “Brüno”, o texto se desenvolve no sentido de combate a tais práticas odiosas. Por que merece estar na lista: O “Desfragmentando PH” sempre procurou lutar contra os preconceitos e os moralistas conservadores. Durante cinco anos, já houve textos a favor dos gordos, nerds, gays, e outras minorias sofredora. Dentre eles, optei por “Cadê a procuração?” para representar essa verve do blog. Pena, porém, que haja um erro de digitação no post. Leia e confira. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2009-08-16_2009-08-22.html 6º lugar: “Do jeito que você é”Sobre o que é: Post que fala sobre uma amiga minha, que sonhava ser alvo de um grande amor. No entanto, temendo afugentar a todos com a sua personalidade, se indagava se deveria mudar a fim de encontrar tal homem. Por que merece estar na lista: Apesar de carregar no tom meloso e piegas, o texto traz como mote principal o amor próprio. Ademais, massifica o meu entendimento de que ninguém deve fingir ser quem não é por causa dos outros. Post açucarado e leve. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2011-09-04_2011-09-10.html Calma que não acabou, não. O post de aniversário continua na Parte 2, logo abaixo...
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 17h07
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Aniversário do "Desfragmentando PH" - Os 10 Melhores Posts em 5 anos
Parte 2 5º lugar: “O post mais louco que escrevi” Sobre o que é: Plagiando o fluxo de consciência empregado por James Joyce em “Ulisses”, fiz um texto sem pontuação, que requer acurada atenção do leitor. Desfiando a minha crise, o post continua sendo uma das maiores ousadias do blog. Por que merece estar na lista: É um post diferente e essencialmente provocador. Provoca o leitor e também a mim, que tentei me reinventar como autor. Ademais, exibe temas recorrentes no “Desfragmentando” como crises existenciais e juvenis, destilando, por fim, um tom esperançoso. Juntamente com “Às vezes” e “Hoje, não sei” (textos que adoro), “O post mais louco que escrevi” parece formar uma trilogia da crise. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2010-08-22_2010-08-28.html 4º lugar: “Carta de Despedida da Faculdade” Sobre o que é: Post epistolar, dirigido a amigos bacharéis em Direito, que se formaram comigo na faculdade no ano de 2010. Por que merece estar na lista: Em que pese não tenha sido um post concebido para o blog inicialmente, este é um dos poucos textos que realmente me orgulho. Sopesando a saudade do passado e a esperança do futuro, a carta que escrevi é um retrato do tempo. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2010-12-12_2010-12-18.html 3º lugar: “História de Solidão” Sobre o que é: Um pequeno conto que versa sobre uma mãe, dona de casa, ignorada por marido e filhos. Por que merece estar na lista: Existem alguns erros que gostaria de extirpar, contudo este é um dos posts que mais gosto. Concebido especialmente pro blog, “História de Solidão” foi o primeiro conto que decidi publicar no “Desfragmentando”. Depois dele, outros vieram como “Impenetrável”, “Vigilante”, “Tradição”, “A Sentença” e “Amor de Menino”. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2007-09-02_2007-09-08.html 2º lugar: “Uma Quase-Comédia Romântica” Sobre o que é: A descrição de uma inusitada cantada no ônibus, que fez lembrar uma crua comédia romântica, sem açúcar nem diálogos capciosos. Por que merece estar na lista: Eu, que sempre tive a fantasiosa vontade de viver numa comédia romântica ou num musical, finalmente tive a oportunidade de fazê-lo. Contudo, por uma questão de passividade, estranheza e desconfiança, deixei a chance passar. Ainda assim, a experiência foi válida e rendeu o post que recebeu medalha de prata no ranking. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2011-07-24_2011-07-30.html 1º lugar: “O tolo, o comum e a imagem refletida” Sobre o que é: Em forma de prosa, descrevo, quase que poeticamente, a minha personalidade e como eu me via no ano de 2007. Em tom aparentemente triste, o texto carrega qualidades que me agradam, como a repetição de palavras e o fluxo do texto. Por que merece estar na lista: Este post mexeu tanto comigo que cheguei a colocá-lo no meu perfil do Orkut, e lá está, até hoje. Embora tenha uma melancolia que me é estranha hoje em dia, o post marcou o blog, botando um patamar que tive que seguir dali por diante. Foi por causa dele que posts diferentes como “História de Solidão” e outros contos puseram ser publicados no “Desfragmentando”, dando uma cara mais literária aos meus textos. Por isso e por muito mais, decidi dar a medalha de ouro a “O tolo, o comum e a imagem refletida”. Link: http://ph.gomes.zip.net/arch2007-06-10_2007-06-16.html Como o leitor pôde ver, o “Desfragmentando PH” contou com uma vasta gama de posts ao longo de sua existência, mesclando bobagens literárias com crônicas e observações sem qualquer sentido. Conquanto existam temas recorrentes no blog, os assuntos abordados não têm um padrão preestabelecido nem seguem cartilhas de boa escrita. Só o que há é esse Pedro, ou PH, desfragmentado, desconstruído, com pedaços de coração colocados em cada post exibido. Cada reflexão, cada conversa puxada, cada lembrança partilhada. Tudo isso fez história, fez o “Desfragmentando PH” como é atualmente, semanal e constante. Neste sábado, dia 11 de fevereiro de 2012, o blog faz cinco anos. De alguma forma, eu também faço cinco anos hoje. Afinal, o “Desfragmentando PH” se confunde comigo e também contigo, leitor. E eu, você, todos juntos nesta festa. Faltou só o bolo. Mas quem sabe a gente não arranja um ano que vem? Fico por aqui, leitor. Até a próxima. Obs: Na história do blog, existiu uma comentarista muito animada. Assinando como “Amiga Secreta”, ela desfiava comentários ora lisonjeiros, ora briguentos. No entanto, fui agraciado com sua presença durante muitos comentários. Embora sumida, sei que ela continua sendo leitora fiel, sempre. Nesses cinco anos de blog, não podia deixar de lembrá-la, afinal, houve até um post feito especialmente em sua homenagem. Quer ver? Clique aqui: http://ph.gomes.zip.net/arch2008-08-03_2008-08-09.html Obs2: Para terminar, queria agradecer muitíssimo a presença do leitor no blog durante todo esse tempo. Sem você, não haveria razão de eu escrever toda semana. Muito obrigado, leitor.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 16h57
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Falsas Religiões

Certa vez estava conversando com uma amiga, quando mencionei que já fizera crisma. Ela, ao ouvir isso, pareceu surpresa, dizendo que nunca imaginou que eu, sendo como sou, poderia ter frequentado a igreja. A sua frase soou inocente, de modo que não levei a mal o que falou, preferindo enterrar o assunto ali. Entretanto, um pouco depois, já sozinho, fiquei remoendo a surpresa de minha amiga. De algum modo, aquilo me incomodou. Por que eu não poderia me adequar a imagem de um bom cristão? O que em mim repelia tal visão? A verdade é que nunca fui muito afeito a igreja, embora a tenha frequentado boa parte de minha vida. Catequese, grupo jovem, crisma. Anos passaram em que estive ouvindo passagens bíblicas e discussões sobre a verdade do evangelho. Tardes de sábado em que sentei em cadeiras, ouvi pessoas falando, me senti ora tocado, ora entediado. Mas aprendi, internalizei ensinamentos, e refleti por conta própria sobre o que era realmente certo, o que eu escolhia crer e o que deveria ser afastado. Faz tempo que não vou à igreja. Fui a abandonando aos poucos e, confesso, de vez em quando sinto falta. Não da homilia ou do levantar-sentar das missas, mas das boas lições e da fé alheia, e da minha, que parecia crescer quando estava em conjunto e observada toda aquela gente reunida com um só propósito. Não lembro o que me afastou das missas. Talvez tenha sido a rotina, a preguiça, a ansiedade de querer fazer coisas novas durante as tardes de sábado. Mas às vezes, por alguns minutos, cogito que foi a pergunta: pra que isso tudo? Lembro das rodas do grupo jovem. Todos sentados, um falando da bíblia e eu pensando: Por que discutir o sexo dos anjos quando pessoas morrem de fome lá fora? Não deveríamos bolar um plano, tentar ajudar o povo de alguma forma? No próprio grupo jovem, algumas facções se formavam. Certas meninas odiavam as outras e faziam fofoca, intrigas, maldades a boca miúda. E eu no meio, aturdido. Cadê o amor ao próximo, a irmandade? Na missa, pessoas rezavam e depois iam às suas casas, retomavam a rotina. E eu imaginava se eles botavam em prática os bons ensinamentos aprendidos com o padre. Será que assimilavam o que era dito ou simplesmente seguiam como se nada tivesse ocorrido? Será que eram reais religiosos ou apenas tomavam a religião como uma forma de redenção pelas maldades que perpetravam todas as semanas? Cada vez mais encontro religiosos por aí. Homens e mulheres que freqüentam suas igrejas, centros e sinagogas; que endeusam a bíblia; que proferem lindos discursos sobre a verdade e a justiça. Que falam sobre as palavras de Jesus como se fossem suas. Que maldizem os ateus e os que têm pouca fé. Que se acham melhores do que os outros, como se tivessem um lugar especial guardado no paraíso para eles. Que falam de bondade, perdão. Que acreditam que suas visões são realmente as corretas e que todas as demais religiões são falsas e oportunistas. Que crêem que Deus olhará melhor por eles porque Ele vê o quando se esforçam para falar em Seu nome. No entanto, me questiono. Quantos religiosos realmente internalizam a religião, ao invés de simplesmente externá-la? Quantos dão a outra face quando apanham, quantos deixam de jogar pedras em Marias Madalenas, quantos amam o próximo como se fossem eles mesmos? Quantos compreendem as lições por detrás das palavras, e tiram disso uma forma de vida? Não adianta falar em Deus e esperar que Seu nome vá purificá-lo por si só. Não adianta disseminar a sua crença, acreditando que, com isso, está fazendo o bem. Não pense que a religião é uma bóia que vai te salvar da danação eterna. Os falsos religiosos adoram se vangloriar de terem a verdade absoluta, como se apenas eles merecessem a salvação. Se agarram às suas crenças ferozmente, por temerem a morte, a irrealização dos sonhos, o diabo. Crêem em Deus porque precisam, não por fé nem bondade. Para mim, são como analfabetos funcionais. Que sabem ler, mas que não extraem da leitura o seu real significado. Não internalizam a religião porque não querem. Acham que apenas repeti-la é o suficiente. Pois eu digo: não é. A eles não é dada a luz, mas a cegueira de quem não quer ver, não quer se enxergar, se questionar ou refletir. Me pergunto, de novo, por que abandonei a igreja. Não foi por falta de fé nem por me achar melhor que os outros. Não foi pela hipocrisia. Acho que foi pela certeza de que a religião não se restringe à igreja. Ela está aqui dentro, viva. Talvez não dê pra ver, mas tudo bem. A verdadeira religião é interna. Fico por aqui. Até a próxima, leitor.
Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h37
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