Desfragmentando PH


Rory Gilmore Sou Eu

            Quando soube que a série “Gilmore Girls” teria um revival em 2016 que contaria com o elenco original e com a criadora Amy Sherman Palladino (que não havia escrito a última temporada do seriado), fiquei animadíssimo.

            Amy vivia concedendo entrevistas nas quais alardeava que desejava muito escrever um final digno para Lorelai e Rory, principalmente porque sempre sonhara encerrar o seriado com quatro palavras especiais. Netflix, então, ouviu os apelos de Amy e dos fãs para fazer um revival que teria quatro episódios de uma hora e meia cada.

            Por conta disso, na sexta passada, com a estreia de “Gilmore Girls – A Year in the life", mais uma vez pude visitar a cidade fictícia de Stars Hollow com seus moradores pitorescos. Todos aqueles personagens me fizeram viajar no tempo, pra quando eu ainda era adolescente e acompanhava a maratona de episódios da série pelos DVDs que adquiria com muito cu$to. Ou então para quando eu assistia aos episódios semana a semana pelo canal Warner.

            Mais de nove anos se passaram e, com exceção das marcas do tempo nos atores e atrizes, lá estavam a mesma química, a personalidade intacta de todos os personagens, os diálogos espertos repletos de referências e a relação de amor entre mãe e filha (Lorelai e Rory) que norteou toda a trama desde o começo. Foi como uma visita gostosa ao passado.

            O que mais me tocou, entretanto, foi a trama construída pela autora para a personagem de Rory Gilmore. Rory sempre foi a personagem perfeita. Uma garota inteligente, doce, que sonhava cursar jornalismo e viajar o mundo a trabalho.

            Contudo, no revival de Gilmore Girls do Netflix, Rory não alcançou a carreira de sucesso que sempre sonhou. Ainda que tenha estudado tanto e se dedicado aos seus objetivos com fervor, o espectador é compelido a vê-la falhando em todas as suas tentativas de conseguir um emprego fixo de jornalista. Perdida em sua carreira e fracassando nos seus relacionamentos amorosos, Rory se vê aos trinta e dois anos em crise.

            O seriado, ao invés de construir um final redentor para a personagem, a faz sofrer a dor de não ter alcançado todos os sonhos da juventude. Mesmo tendo feito tudo certo, a carreira de Rory não decolou como ela ansiava e isso a frustrara.

            Eu me compadeci com Rory e me vi nela. Também tive meus percalços, minhas desilusões, minha vontade de jogar tudo pro alto e recomeçar. Também me questionei e não entendi o que me levara ali. A vida nem sempre é boa como gostaríamos e faz parte da maturidade aceitar isso e nos movimentarmos em uma direção (seja em rebelião, seja em resignação).

            Não à toa, na série há um grupo de homens e mulheres de trinta anos que volta à cidade natal após fracassarem em suas carreiras. Claro que o mote serve para agravar a crise de Rory, mas também para mostrar como pode ser dura a vida pós-faculdade. Todos nós estamos sujeitos ao fracasso, e cabe a nós saber fugir dessas desilusões.

            Embora não possa saber o que acontecerá com a Rory além do ano que cobre o revival, como fã fervoroso e conhecendo suas imensas qualidades, espero que ela saiba se reerguer e lutar, como sempre fez.

            A vida adulta é mesmo assustadora e muitas vezes nos leva a caminhos inesperados. No entanto, é nosso dever inventarmos saídas ou, ao contrário, aceitarmos nosso destino. Cabe a cada um escolher o que melhor lhe cabe. Rory, no seriado, optou por batalhar. Parece mesmo a melhor opção, se quer saber.

*

            Leitor, aviso logo, as últimas quatro palavras da série são bombásticas. Em meio a tantos escândalos e crises na política, chega a ser irônico que seja Gilmore Girls que tenha me deixado em choque.

*

            Se pudesse me descrever com personagens em seriados, acho que eu seria um misto de Chandler Bing e de Rory Gilmore.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h29
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Um pouco de passado

Faz tanto tempo que não venho aqui que parece que as palavras todas me fugiram. Ou melhor: não as palavras, mas aquela ânsia que antes me fazia correr para conversar com meu leitor inexistente. Era como uma paixão avassaladora que me arrastava diante do computador. Só não sei se era amor pelo blog, pelo leitor ou por mim mesmo, já que sempre tomei a escrita como um meio de desabafo dessa minha  característica que pensei ser talento. Mas não era bem talento, era menos: era vontade, talvez inveja dos meus escritores favoritos. Queria eu poder saber transmitir todas as emoções que Lygia, que Rachel, que Machado foram capazes de me provocar enquanto eu lia suas histórias. Ficou o amor pela escrita, dormindo aqui dentro.

Mas uma hora desperta e de repente eu me vejo sentindo saudade daquele sonho que tanto me moveu outrora. Lembro dos meus livros amadoramente encadernados, guardados na estante. Recordo do meu blog abandonado. Lembro do frenesi que sempre me tomou quando eu escrevia minhas bobagens. Posso não ser Lygia, Rachel, Machado, contudo ainda guardo em mim a paixão. Paixão desbotada, é verdade, mas que ainda existe. E foi ela que me trouxe aqui hoje, pra matar as saudades do meu querido “Desfragmentando PH”.

 

 

Falando em passado, estranhamente este tem me visitado ultimamente. A última moda, veja só, virou capturar Pokemóns através do aplicativo “Pokémon Go”. É algo que imita o desenho, no qual o “treinador” sai andando pela rua com o celular e, ao encontrar algum Pokémon (uma espécie de “animal” com poderes especiais), tenta capturá-lo com uma bola colorida (Pokébola).

O jogo está virando uma febre entre os mais novos e, depois de causar algum frenesi no mundo, foi tachado como sendo idiota. Sim, porque aparentemente é um jogo para alienados, dado que faz com que os mais jovens se atraquem a seus celulares, tornando-se zumbis.

Os detratores criticam os novos treinadores, ao passo que os defensores alegaram que o tal jogo tem incentivado novas amizades, exercício físico nas crianças e até cura de depressão de pessoas que não queriam sair de casa.

Embora haja a crítica, eu confesso que baixei tal aplicativo. Divirto-me capturando Pokemóns, os evoluindo e até os nomeando de maneira divertida. Após pegar um Arbok (cobra), dei o nome de Jafar. Ao capturar um Psiduck (pato), o nomeei de Pato Donald. E assim vai.  Depois da febre, até me aventurei a assistir um episódio do antigo Pokémon no Netflix. Achei bobo demais, mas está valendo.

Quando as pessoas se apressam em me criticar, minha desculpa é sempre essa: “Olha, Pokémon é da minha época. Se eles criaram o aplicativo, eu mais do que ninguém deveria jogá-lo pela nostalgia”.

Mesmo depois da confiança desta resposta, continuo jogando o “Pokémon Go” só em casa ou na penumbra. Imagina a vergonha de jogá-lo na rua! Sabe como é, às vezes a falsa confiança vem para disfarçar um certo constrangimento. Tenho quase trinta anos, não é mesmo?

 

 

 Tenho tanto assunto pra falar. Queria mencionar o impeachment, a volta do meu irmão de Dublin, a revolta seletiva das pessoas, as Olimpíadas, meu trabalho, meus livros, filmes e séries. Queria dizer sobre o papel da escrita na minha vida. Não desejo, porém, cansar o leitor com esta minha volta. Desejo retornar fresco, para que possamos conversar com calma, como amigos. Fico por aqui, por hoje.

Estava com saudades, sabia? Não sei se do blog, mas definitivamente de escrever, mesmo que seja pra espalhar tolices. Sinto-me leve e talvez um pouco melancólico. Talvez a escrita seja pra mim, de fato, mais do que uma simples paixão amarelada.   



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 14h57
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Por Onde Andei - Dublin e Amsterdã

Só sei que iríamos visitar o meu irmão, que partiu à Dublin no meio deste ano. Com a sorte de estar num país que ainda não assumira a recessão, Victor, meu irmão, conseguiu ser um dos últimos a ainda gozar do programa “Ciência sem Fronteira”, indo estudar por um ano na prestigiosa universidade Trinity, em Dublin.

Mesmo estando com corações apertados de saudade, ao menos pudemos utilizar a partida do Victor como desculpa para irmos ao seu encontro na Europa. Assim, compramos as passagens a Dublin, com o bônus de podermos passar uns dias em Amsterdã, a outra cidade que eu havia escolhido para conhecer.

Em 25 de outubro de 2015, num dia quente e engarrafado, eu, minha mãe e meu pai fomos ao aeroporto e embarcamos em direção a Amsterdã.

*

Amsterdã é uma cidade pequena e encantadora. Como os pontos turísticos principais ficavam relativamente próximos ao centro, pudemos fazer tudo o que queríamos sem (muita) pressa. Já no Brasil eu havia feito minhas pesquisas sobre os museus, praças e pontos que desejava ir, fazendo um cronograma bastante rígido, o que provocou o meu pai a me apelidar de “General” diante de tamanha organização militar.

Contudo, como as atrações eram perto uma da outra, acabamos deixando de lado os bondes e gastando as nossas solas de sapato em andanças intermináveis pelos lindos canais de Amsterdã. Ficávamos encantados com aquela beleza que a cada esquina nos surpreendia. As pessoas eram todas belíssimas, com seus casacos caros, sorrisos brancos e olhos quase transparentes de tão claros. Pareciam, também, simpáticas e educadas, embora considere que muitos carregavam uma polidez fria e superficial, principalmente quando descobriam que éramos brasileiros.

O ar das ruas da cidade tinha um odor doce, o que me fazia lembrar os stroopwaffles, os wafer recheados de caramelo que vendiam a cada esquina.

Os únicos "estresses" - por incrível que pareça - eram as bicicletas e o cheiro forte de maconha. Por ser um país onde o uso da maconha era lícito, era constante o odor enjoativo da erva seja na rua, seja numa pessoa que passava pela gente de repente no restaurante.

Já as bicicletas eram um caso à parte. Os ciclistas pareciam possuir mais direitos que pedestres, de modo que não respeitavam a sinalização como deviam e costumavam correr de modo alucinado na ciclovia, ainda que para tanto tivessem que quase atropelar transeuntes. Isso me irritava, uma vez que, ao atravessar uma via pública, tinha de prestar atenção nos carros, motos, bondes, ônibus e... nas benditas bicicletas!

Claro que nada disso atrapalhava a sensação constante de que eu estava numa das cidades mais bonitas do mundo. Às vezes, inclusive, me pegava imaginando morar ali, naquelas casas lindas, padronizadas, de cores sóbrias, em frente aos canais.

*

Os museus de Amsterdã são inúmeros e lindos. Fui ao Rijksmuseum, Van Gogh, Diamantes, Nacional de Amsterdã, Our Lord in the Attic, Anne Frank, Rembrandt, entre outros. Cada qual com uma abordagem inovadora e interessante.

Na Casa de Anne Frank, por exemplo, fiquei maravilhado com os documentos, a reconstrução do local, as informações e os vídeos que exibiam depoimentos daqueles que conviveram com Anne. Em especial, o vídeo em que o pai dela relata a sua reação ao encontrar o diário de sua filha morta é particularmente emocionante.

Já no Museu Nacional de Amsterdã, a interação com o público é algo a ser copiado em todo o mundo. No começo da exposição, se ganha um panfleto com um código de barras correspondente a língua do seu país. Assim, ao longo do percurso do museu, os turistas passam os códigos de barras nas luzes vermelhas que piscam e, assim, podem assistir a lindos filmes sobre a história da Holanda.

Claro que o museu mais belo, como não poderia deixar de ser, é o opulento Rijksmuseum, que conta com dois túneis grandes por onde passam bicicletas e pedestres. Lá dentro, numa porta giratória de vidro, há um dos museus mais lindos que visitei, embora não chegue aos pés da magnificência do Louvre.

Estranhamente, o museu que mais me decepcionou foi o do Van Gogh! Tive que enfrentar uma fila interminável e confusa para ingressar no museu para, claro, mirar as telas maravilhosas do famoso pintor. Obviamente, só vi beleza nas pinturasde Van Gogh. No entanto, não encontrei a maioria das telas mais famosas dele, de maneira que fiquei um tanto decepcionado. Pensando depois, lembrei de ter visto pinturas mais bonitas de Van Gogh no Museu D´Orsay, em Paris, e na National Gallery, em Londres.

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Dublin é uma cidade menos bonita e rica que Amsterdã. Ainda assim, tudo é compensado com uma agitação jovem que me encantou. Aliás, por possuir um programa de governo que incentiva intercâmbios, é possível ver uma miscelânea de pessoas que transitam pelas suas ruas. É comum nos surpreendermos com transeuntes falando português ou possuindo uma pele morena muito comum nos países latino-americanos, todos jovens estudantes que passeiam por Dublin como se estivessem em seus países de origem.

Os dublinenses, em sua maioria, são simpáticos e atenciosos. Contudo, eles também são um tanto grosseiros e até um pouco porcos, já que jogam lixo no chão e andam esbarrando nas pessoas. Ainda assim, todos parecem ter um grande orgulho de sua cultura e, por isso, falam com amor de todas as lendas e histórias que envolvem seu país, o que não deixa de ser algo admirável.

Uma surpresa boa de lá é que a cidade é extremamente musical. Ouvi música em todos os bares e restaurantes que fomos, sem exceção. Nas ruas, grupos se apresentam com entusiasmo até depois da meia noite, muitas vezes para um público desatento e escasso.

Outro ponto alto da cidade ficou por conta dos vários pubs espalhados pela cidade. Embora eles possuam preços salgados, muitos deles apresentam apresentações grátis de artistas, contando com uma infraestrutura aconchegante e acolhedora. As cervejas, claro, são o ponto alto de qualquer pub e talvez por isso seja muito comum vermos bêbados se arrastando pelas ruas até depois das seis da manhã.

*

O mais bonito da Irlanda, seja na República da Irlanda ou na Irlanda do Norte, é a rica paisagem verdejante que se espalha por todos os cantos. Na verdade, mesmo as estradas contam com lugares de tirar o fôlego.

Indo a Cliffs of Moher, um local cheio de precipícios na Irlanda, passei por estradas que parecem saídas de filmes europeus. Cidades pequenas, casas apertadas com telhados de feno, estradas rodeadas de árvores altíssimas e amareladas, vacas peludas, muros de pedra e ruínas de castelos.

Em Cliffs of Moher é impossível ficar parado diante de tanta beleza, de modo que saí tirando fotos como um louco, querendo reter uma prova de que estive lá e pude me maravilhar com aquelas pedras altíssimas que tocam o mar. Mesmo havendo mosquitos que teimavam em me rodear, não pude deixar de me inebriar com tanto encanto!

Já na Irlanda do Norte, fiquei assombrado com um lugar chamado “Carrick-a-rede” onde há uma ponte - que parecia saída dos filmes de Indiana Jones – que ligava dois morros que aparentavam boiar no mar agitado. No mesmo país, existe também a chamada “Calçada do Gigante”, formada por rochas vulcânicas que mais parecem degraus em direção ao oceano. É uma obra-prima da natureza, sendo bastante claro por que o local é considerado um dos patrimônios da humanidade pela Unesco.

Na verdade, a Irlanda, conhecida como o “Jardim da Europa”, encanta precisamente pela sua paisagem natural e suas pequenas cidades interioranas repletas de charme e aconchego. Uma vez lá, prometi a mim mesmo que voltaria ao país só para rodear de carro os cantos mais escondidos da Irlanda.

O maior drama que me aconteceu em Dublin ocorreu no penúltimo dia de viagem, quando meu pai transformou em terror todas as boas experiências que eu tinha tido até ali.

Estávamos numa excursão de ônibus que duraria um dia. Nossa primeira parada era num lago, floresta e ruínas que ficavam em um local chamado de Glendalough, a quase duas horas do centro de Dublin. Já no fim do passeio, vi meu pai se afastar do grupo como se fosse para tirar foto. No entanto, pouco depois, percebi com pesar que ele desaparecera. Com um horror genuíno, meu inglês virou precário de repente e me vi balbuciando frases desconexas a guias de turismo e recepcionistas à procura de meu pai desaparecido.

Quando o ônibus já havia partido e me deixado, junto com minha mãe, em um local ermo, fomos encontrar meu pai que vinha vermelho e envergonhado. Aparentemente ele havia se perdido ao tentar fazer xixi... na floresta! Irritado, cheguei a fazer um pequeno escândalo para extravasar o infortúnio. Superada a raiva, contudo, consegui ver beleza onde não mais existia e hoje fico alegre por ter tido aquela horrorosa experiência. Ao menos tenho uma história a mais para contar!

*

Quando chegamos a Dublin, encontramos meu irmão ansioso por nos ver. Estávamos morrendo de saudade e planejávamos nossos passeios querendo fazer todos com o Victor, para que ficássemos juntos o maior tempo possível.

O campus do Trinity College era muito bonito. Havia um museu e uma biblioteca no local, os quais possuíam como especial atração o tal “Livro de Kells”, cujas páginas não eram feitas de papel e sim de pele, pelo que eu pude entender (!). O refeitório servia comida barata (ou quase isso, se considerado o valor atual do euro!) e gostosa. Havia, dentro do campus, uma academia, piscina, campos para esportes e todas as regalias necessárias aos alunos.

O Victor de Dublin era muito adulto do que eu estava acostumado. Ele não só dividia apartamento com um bando de amigos que teve que fazer em Dublin (todos brasileiros), como também cozinhava, pagava as contas, lavava e passava roupas. Pelo que parece, ele tem se saído muito bem, o que nos deixou com muito orgulho.

O difícil mesmo foi partir. Nos abraçamos com olhos marejados e foi complicado sair com o carro e deixá-lo virar um ponto enquanto nos afastávamos.

*

Voltando ao Brasil, encontrei um calor insuportável, engarrafamento e o taxista mal humorado querendo cobrar dois reais por cada mala carregada. Meu Deus. Como é bom estar de férias!

Obs: Visitamos Bruges (Bélgica) também, mas preferi não escrever nada sobre a cidadezinha - que é lindíssima - visto que estive lá apenas por um dia. 

Obs2: Estava com saudades de você, blog.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 15h02
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Sem Amarras

            

 

 

               Quando Paula disse aos pais que desejava se inscrever num teste para uma espécie de faculdade de música em Paris, estes receberam a notícia como um ataque pessoal. Tal ideia parecia um tanto ridícula para eles, dado que não só Paula era apenas uma adolescente, como também ela era a ligação deles com o mundo "exterior". Paula era a única da família que conseguia ouvir e se expressar perfeitamente, de maneira que ajudava bastante a vida de seus pais surdos ao resolver problemas e vender os queijos artesanais que fabricavam.

            O enredo acima, logicamente, foi extraído do emocionante filme “A Família Bélier”, que fui assistir sábado passado. Saí do cinema e acabei me deparando com vários espectadores com olhos vermelhos de choro recente, de maneira que me alegrei por verificar que não era só eu que havia adorado o longa.

            Claro que, passado o furor da sessão, acabei pensando em Paula e no dilema de sua família. Tirando todas as complexidades do tema, lembrei da dor que é saber que nem sempre aqueles que estão ao nosso redor podem ficar, de certa maneira, presos a nós do jeito que desejamos.

            Estranhamente, recordei de um recado que havia escrito para uma amiga há anos. Na época, havia acabado de ingressar na faculdade, e sentia que aos poucos ela ia se distanciando. Não por ter morrido a amizade, mas sim porque ela conhecia novos colegas e tinha experiências que pareciam bastante alegres.

            Sempre me deparava com fotografias repletas de sorrisos desta amiga com desconhecidos, o que, de início, me despertava ciúmes. Naqueles tempos, inaugurando a idade adulta, ainda sentia ranços de uma adolescência tardia, de modo que ainda alimentava a ideia de que as pessoas nos pertencem para sempre.  

            No recado em questão, escrevi exatamente assim: “Sinto um leve fio de melancolia quando penso que as pessoas não vivem ligadas a mim ou vice-versa. Coisa doida, eu sei. Mas é que às vezes consideramos tanto alguém que quando nos damos conta, essa pessoa já está em outra. Eu gostaria de pensar que tenho controle e onipresença sobre os passos de cada um. Gostaria que as pessoas só vivessem quando eu estivesse olhando, assistindo, vendo. É um pensamento egoísta, eu sei, mas é um pensamento. O que farei? Odeio imaginar que você tem toda uma vida longe de mim e o mesmo ocorre com o Victor, minha mãe, pai e todo mundo. Todos têm vidas independentes. Coisa mais chata! Eu também tenho, droga. Mas queria tanto saber tudo que os outros sabem, queria conhecer todos que os outros conhecem”.

            Um pouco mais velho e já maduro o suficiente para perceber que o mundo não girava ao meu redor, fui aceitando aos poucos que os melhores relacionamentos são nutridos pela liberdade e que, de certa maneira, é reconfortante saber que cada um tem seus parentes e amigos, os quais, por sua vez, também contam com sua rede de pessoas próximas.

            Por mais que adoremos nossos amigos e parentes, devemos saber que cada um possui a liberdade de ir e voltar quando quiser, que a cada um é devido fazer suas escolhas, ainda que estas nos mantenham distantes. Os relacionamentos não fazem prisioneiros. Ao contrário, tudo é escolha e confiança.

            Os pais de Paula, conquanto tenham abominado o dom da filha (talvez porque nunca pudessem apreciar o poder da música), aos poucos tiveram que permitir que a escolha dela regesse a sua vida. Da mesma maneira, eu tive que contar com a minha amiga para que mantivéssemos viva a nossa amizade, a qual, inclusive, dura até hoje.

            Ao contrário do Pedro de antigamente, eu já não desejo a onipresença nem o poder absoluto em relação àqueles que amo. Quero hoje a liberdade minha e deles para que possamos ter um relacionamento sem cobranças, sem amarras. Desejo o amor independente, sabendo que, se o sentimento for verdadeiro, ele persistirá, inabalável.

 

 

Obs: Acho que fugi um pouco do tema, mas a verdade é que temi dar muitos spoilers sobre o filme “A Família Bélier”, já que espero que o leitor vá correndo assistir porque vale muito o ingresso. 

Obs2: Você poderia me perguntar por que o primeiro parágrafo está na cor verde. A resposta: não faço a mínima ideia. Mudei para o preto mil vezes e mil vezes ficou verde. É que o blog tem vontade própria, logo não é bom contrariar.

 



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h15
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O que define uma família

 

            O que define uma família?  Os mais apressados vão responder prontamente: os laços sanguíneos. Mas é só pensar mais um pouco e pronto, a pergunta deixa de ser tão simples para envolver outras questões - bem mais profundas - que devem ser consideradas nesta difícil equação.

           

            Esta indagação fica rodeando na cabeça de quem topa assistir a delícia que é “Sete Vidas”. Da mesma criadora da magistral “A Vida da Gente”, Lícia Manzo mais uma vez acerta na doçura e enche o espectador de amor na sua nova novela, que trata exatamente sobre a família.

 

A trama central de “Sete Vidas” gira em torno de sete meio-irmãos. Todos frutos de inseminação artificial, eles descobrem que partilham o mesmo pai biológico e, por isso, decidem se conhecer e participar da vida um do outro.

 

Neste caso, além de comungarem do mesmo genitor, os protagonistas compartilham da mesma escolha: eles querem formar uma família. Não basta o sangue, pois eles desejam ser amigos e participar de festas, encontros, jantares juntos. Enfim, anseiam por ser uma família, ainda que cada qual possua sua vida.

 

Aliás, na mesma novela, existem vários tipos entidades familiares, de todas as espécies e formatos. Existe o homem que cuidou do filho da esposa que faleceu. Há a amizade inexplicável entre primas. Existe a mãe lésbica que criou dois filhos. E por aí vai, numa miscelânea que muito parece com a vida real.

 

A verdade é que há muito a família deixou de ser uma relação consanguínea para se tornar algo muito mais amplo. Na verdade, quem acompanhou esta mudança, por incrível que pareça, foram os operadores do Direito que deram um nome muito bonito para aquilo que une todas as pessoas: a socioafetividade.

 

Hoje em dia já não basta aqueles que acreditam que gerar um filho é apenas doar sêmen. Ao contrário, o que mantém todos unidos num núcleo familiar é uma relação que transcende todas as questões biológicas e transborda para aquilo que envolve almas: o reconhecimento do amor.

 

 Aquele homem que reconhece como seu o filho de outrem. O casal de gays que cria uma criança. Um homem e uma mulher que se casam. O irmão mais velho que cuida dos mais novos quando os pais morrem. Todos formam famílias ligadas pela necessidade de querer cuidar e fazer parte da vida um do outro.

 

Talvez por isso ainda me assuste com algumas pessoas que, filiadas a um preconceito aterrador - muitas vezes revestido de falsa religião ou moralismo -, visam criar leis e empecilhos à formação de famílias heterogêneas, objetivando engessar o progresso a fim de legitimar atitudes mesquinhas.

 

Para dar um exemplo, cito o Estatuto da Família (Projeto de Lei nº 6583/13) que tramita no Congresso Nacional. Na contramão do entendimento do Supremo Tribunal Federal que entendeu que a união homossexual é considerada uma forma familiar, o referido projeto de lei diz que só é família quando existe a relação entre homem e mulher. Nesta linha, o tal estatuto proíbe, ainda, adoção por casais gays.

 

Passando ao largo da clara inconstitucionalidade do aludido projeto de lei, é certo que ainda hoje parecemos viver em plena idade média. Muitos brasileiros visam modificar a realidade, fechando os olhos para a evolução da sociedade e pregando a disseminação da intolerância.

 

Há poucos anos era ilegal se divorciar. Era ilegal considerar iguais os filhos gerados na constância do casamento e aqueles oriundos de uma relação extraconjugal. Era ilegal a mãe registrar o filho sem a presença do pai.

 

Contudo, diante da evolução da sociedade, a legislação teve de ser alterada para se amoldar aos novos tempos, já que as famílias atuais merecem a mesma luz que aquelas formadas por mamãe-casada-com-papai.

 

Muitos diziam que o divórcio iria aniquilar a família tradicional. Isso não ocorreu. As pessoas continham casando e vivendo em união estável. Muitos diziam que não era justo que um “bastardo” tivesse os mesmos direitos que uma criança gerada durante o casamento. Mas seria justo uma criança pagar pela traição do(a) pai/mãe?

 

As teses dos preconceituosos vão caindo uma a uma. Contudo, o que me preocupa não é a inconsistência dos discursos de ódio, mas sim os olhos fechados e os corações amargurados que não conseguem aceitar que as pessoas são diferentes e merecem viver com liberdade.

 

O que define uma família, ensina Lizia Manzo em “Sete Vidas”, é o amor que une os indivíduos. O lugar que nascemos e as nossas origens são relevantes porque elas nos dão uma base sólida para nos conhecermos melhor, mas é o amor que mantém todos unidos.

 

Família – quem diria? – também é escolha. É a escolha de viver junto, de partilhar momentos, de querer fazer parte da vida do outro. É amor, pura e simplesmente.

 

 

Obs: Esse blog tem uma formatação louca de texto que foge do meu conhecimento. Tem vida própria, então desculpe o leitor qualquer fonte e tamanho estranhos dos posts que encontrar por aqui.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 23h00
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O Verdadeiro Feminismo

 

 


             Na noite da cerimônia do Oscar, as imagens da Meryl Streep apoiando o discurso inflamado da Patricia Arquette rendeu memes hilários. Patricia, na ocasião, aproveitou a sua vitória para apoiar o salário igualitário entre homens e mulheres.

              Pudera: em um e-mail vazado por hackers sul-coreanos, descobriu-se que Hollywood faz uma absurda diferenciação remuneratória entre gêneros. Para dar um exemplo, veio à tona o fato de que Jennifer Lawrence e Amy Adams ganharam a porcentagem de 7% sobre o valor da bilheteria do filme “Trapaça”, enquanto seus colegas Bradley Cooper, Jeremy Renner e Christian Bale levaram 9% pelo mesmo trabalho.

             Claro que a situação de Hollywood se repete em todos os setores da sociedade, já que, em pleno século XXI, os homens recebem bem mais do que as mulheres, ainda que exerçam a mesma função. As explicações para tanto acabam recaindo na velha história de que os homens costumam ser mais dedicados à vida profissional, enquanto as mulheres acabam sempre trabalhando divididas entre o lado pessoal e o trabalho, o que já deixou de ser verdade há muito.

              Não à toa, a causa feminista vem ganhando força nas redes sociais nos últimos tempos. Nunca se viram tantos posts que apoiam as mulheres em todas as suas lutas típicas, que vão desde a luta pela igualdade salarial até o direito a sentir prazer no ato sexual, o que já demonstra, por si só, uma evolução considerável na disseminação do feminismo.

            O feminismo atual tem como ídolo a figura da atriz Emma Watson que, tal qual Hermione faria, se dedicou a esta causa nobre ao fazer discursos a favor das mulheres em várias cerimônias internacionais. Ela, pelo que consta, é o rosto da campanha “He For She”, convocando os homens a também apoiarem a causa feminista, o que, de certo modo, estou fazendo aqui, com este post.

              De fato, sempre apoiei as maiores causas feministas com muita boa vontade, já que tenho uma horda de maravilhosas mulheres que me rodeiam, seja na família, no círculo de amigos ou em qualquer lugar que eu vá. Simpatizo com a idéia de equiparação salarial, igualdade de direitos, liberdade irrestrita, luta contra estereótipos, etc.

            No entanto, a meu ver, o maior entrave contra esta causa está no pensamento enraizado da população, que ainda traz ranços um tanto equivocados do machismo. E não adianta dizer que apenas homens são machistas, porque isso é fechar os olhos para uma realidade que talvez pareça incômoda: muitas mulheres também o são.

            Obviamente, as pessoas pensam que ser machista é chamar de “piranha” alguém que beija/transa com mais de um homem por noite. Ou é reclamar do vestido curto da namorada na hora de sair. Ou é quem acha que lugar de mulher é mesmo na cozinha e no tanque de lavar roupa. Claro que isso tudo faz parte do pacote, mas limitá-lo é um pensamento equivocado.

            Façamos um teste: no primeiro encontro, quem tem de pagar a conta do restaurante? O homem tem que buscar a mulher na sua casa? O homem tem que abrir a porta do carro para a mulher sair?

            Quanto ao comportamento, novas indagações: você acha que aquela sua amiga que transa com um cara a cada semana é vagabunda? E aquela sua amiga que trai o marido? Você reprova aquela mulher que diz que não quer casar e ter filhos? E aquela amiga que esqueceu de depilar o buço? E aquela que fala palavrão? E aquela que bebe todos os dias? O homem é obrigado a reagir quando provocado? O homem é obrigado a usar a força quando necessário pelas circunstâncias? ?  Você acha que o cara tem tendências homossexuais quando ele não exige sexo com regularidade ou quando não elogia mulheres? O homem deve defender a mulher sobre toda e qualquer circunstância?

            E em casa: Você permitiria o seu filho brincar com bonecas, fornos elétricos ou utensílios de cozinha de brinquedo? E usar blusas cor de rosa ainda que seja bem criança? Você exige que seu marido divida as tarefas domésticas com você? O homem é obrigado a arcar financeiramente com a maioria das contas da casa?

           Claro que eu poderia continuar fazendo perguntas infinitas cuja resposta eu imagino. O machismo é algo enraizado na nossa cultura, de modo que temos todos que reconhecê-lo em nós mesmos e lutar contra ele, assim como fazemos com os nossos próprios preconceitos.

            O feminismo se preocupa muito em lutar pelos direitos absolutos das mulheres em grandes frentes e, às vezes, se esquece do panorama maior. O maior desafio não é ter igualdade de direitos e deveres, pois estes já estão assegurados na Constituição Federal e nas demais normas jurídicas.

            Na verdade, o maior desafio é mudar a forma de pensar da sociedade. O machismo continuará a reinar ao menos que sejam alteradas a criação e os ensinamentos transmitidos às crianças. Também é necessário modificar a forma com a qual reagimos nas relações cotidianas, já que estamos todos inundados em preconceitos e premissas equivocadas.

             A verdadeira feminista não é aquela que quer ter o mesmo salário que o homem, mas que, ao mesmo tempo, sonha em casar com o Príncipe Encantado. Não é aquela que adora a Emma Watson, mas que continua difamando aquela amiga que transa com todos os caras da faculdade. Não é aquela que diz pro filho que mamãe tem que passar roupa enquanto papai brincará com ele.

              Feminismo não pode ser uma luta vazia por direitos. Ele deve envolver uma forma de pensar e de se comportar. Feminismo envolve liberdade de ser, querer e agir. É preciso mudar para só então pensar em uma igualdade que saia do papel para se tornar realidade.

 

Obs: Acho que, de certa maneira, acabei aderindo à campanha “He For She” da Emma Watson

Obs2: Este é o primeiro post de 2015 de “Desfragmentando PH”. Que vergonha deste blog abandonado!



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 19h53
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Cartas Extraviadas: O Pedido Especial ao Papai Noel

         Papai Noel,

 

          Eu te vi ontem no shopping e penso realmente que está fora do peso. Não que eu tenha qualquer preconceito com isso, mas minha mãe sempre diz que gordinhos são perfeitos alvos para bullying e me senti na obrigação de alertá-lo.

          Existe um garoto na minha sala – com o terrível nome de Wallace – que de fato é uma baleia, e os meus amigos vivem implicando com ele, afirmando que sua barriga é tão grande que deve ser difícil mirar no vaso sanitário na hora de fazer xixi. Foi por isso que quis te dar uma dica antes que seus colegas resolvam te tomar como alvo de piadinhas.

          Bem, dado o recado, sinto que já criamos uma certa amizade. Quer dizer, você nunca me viu nem conheceu pessoalmente, e ainda assim todos os anos resolve me dar um presente. Acho que isso quer dizer que acabou criando uma forte relação de carinho por mim, mesmo não me conhecendo realmente. E foi este seu afeto incrível que o força a me presentear. Que bom. Devo confessar que adorei todos os presentes que já me deu, com exceção claramente daquele carrinho de controle remoto do ano passado.

          O carrinho era tão vagabundo que apenas durou dois dias, quebrando de vez quando o joguei da janela do meu quarto por raiva. Sim, raiva depois que vi que o carrinho de controle remoto do Wallace era bem mais potente e brilhoso do que o meu, o que me pareceu bastante injusto, se quer saber a minha opinião.

          Ora, Papai Noel, sejamos honestos: Wallace é uma baleia insuportável. Às vezes fico me perguntando como pode um garoto ter aquela barriga grande! Meu pai também tem uma barriga imensa, mas sempre culpa o chope do fim de semana. Fico imaginando qual será a desculpa de Wallace.

          Isso não importa realmente. Estou te escrevendo como faço todos os anos, mas desta vez resolvi gastar um pouco mais de tempo para fazer um pedido especial. Não é nada que um bom velhinho como o senhor não possa fazer, principalmente quando levado em consideração todos os anos de amizade que temos.

         Pois bem, meus pedidos deste ano são simples: quero um Playstation 4, três jogos (GTA, Fifa e NBA), um iPhone 6 e, claro, um novo carrinho de controle remoto, mas desta vez um que seja veloz o suficiente para humilhar meus colegas da escola.

         Deve estar estranhando os poucos pedidos que fiz. Pois é: estou me sentindo bastante generoso este ano, e isso porque mamãe me explicou que o senhor já tem que gastar um dinheirão com os presentes das outras crianças, de modo que não pode gastar tudo comigo. Eu entendo. Há outras crianças no mundo, principalmente na África onde existe muita gente com fome, como me ensinou papai.

Ainda assim, sinto que devo fazer um último pedido. Gostaria, por favor, que não desse nenhum presente para o Wallace este ano. Logicamente ele não tem sido um bom menino, o que eu lamento muito.

Wallace, como sabe, exibiu de maneira bastante egoísta o carrinho de controle remoto no colégio, levando-o todos os dias para que pudesse brincar no recreio e atrair novos amiguinhos. Acho que isso apenas mostra o quão mesquinho ele pode ser, principalmente porque sabe que muitos coleguinhas não tiveram a oportunidade de ganhar um presente como este no Natal.

Ele também não tirou tão boas notas na escola, já que a Tia Helena foi reclamar que ele não presta atenção no ditado e por isso erra coisas básicas. Coitado. Wallace também não tem nenhum autocontrole como diz mamãe, porque ele come um pacote inteirinho de Chocolícia no recreio e mal oferece biscoitos para o resto da turma.

Papai Noel, acho que fui bastante claro: Wallace não foi um bom menino e não merece nenhum presente neste Natal. Faça este favor por mim e não o visite este ano. Deixe que ele aprenda a lição para que seja um menino mais legal e mais magro no ano que vem.

Bem, acho melhor eu parar por aqui porque o meu desenho vai começar. Espero o senhor e meus presentes dia 24. Vou deixar a janela aberta para o senhor. Mas trate de chegar um pouco mais cedo na minha casa, tá? Apresse suas renas, se puder. Detesto ficar esperando.

 

Abraços amorosos,

 

 

José Aurélio Malta Albuquerque Petriz



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 18h09
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Por que as Francesas são Magras: impressões breves de Paris e Londres

             

         Há quase um mês quebrei uma tradição aqui no blog: não escrevi meu tradicional post de aniversário. Como todo ano os posts acabam se assemelhando, resolvi evitar a sensação de deja vù e prolonguei a minha ausência por aqui por mais um tempo.

                O que fiz diferente este ano foi ter saído da minha inércia paralisante para me dar um presente inesquecível, que, no caso, foi uma viagem a Paris e a Londres por alguns dias. Juntei o dinheiro da poupança, a crise com a vida e o desejo de mudança para embarcar numa viagem a Europa com Mariana e Fábio, amigos de colégio.

                Não poderia ter tido uma ideia melhor. Com cenários impressionantes, companhias adoráveis e uma disposição (quase) infinita, me aventurei pelos países com tamanha ânsia que não pude evitar o deslumbramento com tudo que vivi nestes poucos dias.

*

Confesso que sempre tive um preconceito com Paris. Acho toda essa história de cidade-luz uma chatice e detesto o fato de todos amaaaarem Paris, como se não houvesse nenhum outro lugar tão impactante quanto lá.

Talvez por isso eu tenha ido com um pé atrás com a cidade, já pretendendo gostar muito mais de Londres, só para ter o prazer esnobe de dizer que não vi nada de interessante em Paris e preferi muito mais o clima londrino. Claro que meu plano não só fracassou, como me vi impressionado com o tal charme parisiense.

Pelos lugares que andei não vi nada a não ser beleza e glamour. Cada bistrô, padaria e docerias pareciam tão apetitosos que tive que lembrar da minha condição financeira (e do meu peso) para não me entregar aos prazeres culinários. Sim, porque gastar em euro dói – e muito! – na consciência.

Além disso, cada jardim, praça e museus eram tão lindos que ficava impossível não imitar os coreanos e sair tirando fotos alucinadas de cada esquina. Tudo de um bom gosto e cuidado que me deixou extasiado, principalmente pelo valor que se dá aos pequenos detalhes, por menores que pareçam.

E até mesmo os parisienses não me pareceram tão irritantes quanto eu imaginava. Embora tenha me deparado com muitas pessoas impacientes e (algumas) grosseiras, em sua maioria me vi bem tratado, o que para mim sempre é essencial.

*

O ponto alto da França foi o Castelo de Versailles, mais especificamente seus jardins. Pareceu-me que eu estava dentro de um sonho bastante impactante, com aqueles desenhos na grama e os lagos refletindo as folhas amareladas que caíam das árvores.

(Como passavam bem os monarcas de Paris! Até mesmo Maria Antonieta deve ter comido os mais deliciosos brioches enquanto caçoava do povo no Petit Trianon, um palacete belíssimo escondido na relva)

Mas nem só de castelos se faz a França (ao todo conheci uns quatro!), havendo espaço também para os incontáveis museus espalhados pela cidade. Claro que o melhor foi, de longe, o Louvre. Tirando a decepção que foi a Monalisa, toda a grandiosidade do museu apenas deixa a sensação que não deu pra ver tudo.

Se eu morasse em Paris faria questão de ir ao Louvre todos os meses, nem que fosse para visitar uma ala de cada vez, prestando atenção a cada bela escultura, cada quadro histórico.

É tudo tão grande que chega a causar angústia a ideia de não poder ver tudo que se deseja. Ainda assim, eu contei com a habilidade de Fábio com mapas para ver tudo aquilo que me dispus a visitar, com exceção de um quadro que estava em uma exposição... em Hong Kong!

*

Londres, por incrível que pareça, é uma cidade um tanto claustrofóbica. As ruas de pedra parecem bastante apertadas e vão seguindo por becos e escadarias por lugares às vezes obscuros. E mesmo as avenidas largas parecem sempre apinhadas de pessoas, que vão empurrando e correndo como uma grande metrópole que Londres de fato é.

Ainda assim, em meio aquela cidade frenética, há parques belíssimos, dentre os quais Hyde Park e Kensington Gardens. Todos com inúmeros caminhos por meio a árvores altíssimas que, no outono, misturam folhas verdes, amarelas e até vermelhas. Os esquilos com caudas felpudas estão em toda parte e só começam a correr quando os cachorros os perseguem, atiçados pelos donos.

De todos os bairros, o que mais gostei de conhecer, obviamente, foi Notting Hill. Cheguei ao ápice da alegria ao comprar um livro na mesma livraria cuja fachada serviu de inspiração para o filme homônimo, que eu gosto tanto. Só faltou a Julia Roberts!

O ponto alto da Inglaterra, contudo, foi o Castelo de Windsor (olha outro castelo aí!), onde a rainha Elizabeth se encontrava quando eu estava lá. A cidade ao redor era muito bonita, havendo um rio imenso onde dezenas de cisnes nadavam. O castelo era um show à parte, todo decorado lindamente, e com uma história tão rica que fiquei lembrando das aulas do professor Arthur de anos atrás.

E mesmo saindo de Londres com tantas recordações boas, não pude conter a sensação de que Paris era bem melhor.

*

Em Paris, fui a uma doceria incrível no bairro Saint-Germain-de-Prés, o mesmo onde fica a primeira igreja da cidade e também onde estão os dois cafés onde Sartre, Bevoir, Hemingway e tantos outros se encontravam.

Eu queria muito conhecer a famosa sobremesa “creme brulée”, que a Julia Robets já se gabava no filme “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (já deu pra sentir que sou um fã da atriz, né?). Porém, na vitrine da doceria, havia tantos doces maravilhosos que não me contive e pedi outro, além do creme brulée.

A atendente, julgando que eu não falava uma palavra de francês, chegou a caçoar com sua amiga dizendo algo como: “Dois doces para uma pessoa? Que absurdo!”, o que preferi ignorar embora tenha espumado de raiva pela zoeira internacional.

Minha vingança foi me deliciar com as duas sobremesas e a atendente que se ferrasse! Ela podia comer creme brulée todo dia.

*

Os metrôs de Londres e Paris são bastante antigos e nem um pouco arejados. Pelo contrário, a ausência de ar condicionado deixa tudo muito abafado, principalmente pela quantidade de pessoas que se esmagam nos vagões.

O melhor de tudo é que, pegando o metrô, dá a impressão de que conhecemos melhor o povo, já que podemos reparar nos parisienses e londrinos. Notei, por exemplo, que os (homens) parisienses são magros e usam um uniforme que conta com botas, sobretudo, cachecol enrolado e camisetas, sempre com uma aparência “chique-sem-querer”.

As mulheres, por sua vez, são bem elegantes e todas, sem exceção, são bastante magras. Recordei imediatamente de um livro vendido na Saraiva chamado “Por que as francesas são magras”.

Alguns dias em Paris e a resposta está na ponta da língua: o metrô. Há tantas conexões e tantas, tantas escadas que dá a sensação de que todo dia é como os filmes do Rocky, em que o personagem título sobe uma imensidade de escadas ao som daquela musiquinha chiclete. Impossível ser gordo depois de tanto exercício físico!

*

Logo após voltar ao Brasil, acabei me deparando com uma igreja no Centro do Rio de Janeiro, a Igreja da Nossa Senhora do Carmo. Lindíssima e com muitos adornos dourados, fiquei pensando por que nunca havia estado ali antes. Em uma plaquinha descobri que lá fora o lugar onde o Dom Pedro I e o Dom Pedro II haviam sido coroados há muitos anos.

Fiquei aturdido! Nunca fora divulgado ou sequer anunciado um lugar como aquele! E jogado às moscas. Se fosse em Londres ou em Paris haveria filas de turistas naquela igreja. Mas para os brasileiros, ali era apenas mais um lugar onde missas aconteciam.

Saí da igreja e me deparei com a Praça XV. Um cenário histórico tão belo tomado de mendigos, pichações e bandidos.

 Meu Deus. Que saudade de Paris!

 

(A impressão é que temos tamanho potencial natural e cultural para sermos a melhor cidade do mundo, mas afundamos tudo na ignorância, na inércia e no desinteresse. Somos um povo tão imaturo)



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 22h57
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Top Dez: Os Livros Mais Marcantes

 

Estava vagando pelo Facebook, quando, no meio de diversos posts sem graça, encontrei um certo “Desafio” em que uma pessoa tinha que listar os dez livros mais marcantes que leu na vida. Em meio a desafios de balde d´água e de tirar fotografias sem maquiagem, julguei que a brincadeira dos livros, ao menos, estimulava a leitura, além de servir claramente para conhecer a personalidade dos amigos. Por esta razão, me ressenti pelo fato de que ninguém havia me desafiado ainda.

Contudo, como o país é livre e sou ansioso, prefiro tomar a liderança e eu mesmo começar a brincadeira. Aqui vão os 10 livros que mais me marcaram:

 

1) O  Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz

Rachel é um caso de amor antigo. Seu estilo e seu modo de escrever são os atributos que fazem com que eu a inveje eternamente. Nem sempre seu talento encontra uma trama boa, mas, no livro da Maria Moura, a escritora cria uma saga ousada e repleta de reviravoltas. Por ora, continuo dizendo que é meu livro preferido, até porque seu estilo me inspirou a escrever meu segundo romance.

 

2) Orgulho e Preconceito, Jane Austen

Jane Austen é alvo de preconceito constante, exatamente porque seus livros sempre versam sobre amor e acabam em casamento. No entanto, as personagens principais de Jane são profundas e dotadas de mais complexidade do que poderiam supor. Ademais, a fina ironia e a crítica social são tão atuais que é impossível não adorar a autora. Em “Orgulho e Preconceito”, Austen está na sua melhor forma. É difícil não se enternecer com Elizabeth Bennet e Mr. Darcy.

 

3) Na Praia, Ian McEwan

O estilo de McEwan pode não agradar a todos. Tudo parece se mover muito devagar em seus livros, mas é assim que o autor vai tecendo a personalidade de seus personagens. Sua escrita é impecável, principalmente porque só ele consegue nos fazer mergulhar na cabeça destas pessoas fictícias, quase como se pudéssemos adivinhar pensamentos e prever sentimentos. É tudo muito rico e impressionante. “Na Praia”, como “Reparação”, são obras que, quando terminam, deixam um amargor que muito provocam o leitor.

 

4) Antes do Baile Verde, Lygia Fagundes Telles

A meu ver, Lygia é a melhor escritora atual. Seus livros são ousados, os personagens são complexos e as tramas bem amarradas. Os contos dela são ecléticos a ponto de encantar qualquer leitor: flertam com o romance, suspense e/ou fantasia. “Antes do Baile Verde”, por exemplo, traz alguns dos meus contos preferidos dela.

 

5) Gone Baby Gone, Dennis Lehane

É difícil encontrar livros de suspense que sejam verossímeis, bons e surpreendentes. Com um clima soturno de Boston, Lehane vai envolvendo o leitor com personagens violentos, debochados e imprevisíveis. “Gone baby gone” traz a dupla de investigadores Kensie e Genaro, que já haviam sido protagonistas de outras obras de Lehane. O final do livro, em especial, é um soco no estômago e traz reflexão.

 

6) Dom Casmurro, Machado de Assis

O melhor escritor brasileiro de todos os tempos não poderia ter uma escrita que não fosse genial. Ame-o ou o odeie, mas não negue que o seu estilo é impecável e o seu modo de escrever impressiona. “Dom Casmurro” traz personagens dúbios e misteriosos, além de ter uma força que torna a sua leitura obrigatória.

 

7) Otelo, William Shakespeare

Embora todos louvem Shakespeare, confesso que não são todas as suas peças que me encantam. A minha preferida é Otelo, principalmente porque o autor inglês criou um vilão invejoso e dissimulado, que brinca com os sentimentos de todos os outros personagens e deixa o leitor preso até o fim trágico.

 

8) A Visita Cruel do Tempo, Jennifer Egan

O livro mais criativo e repleto de estilo que li nos últimos anos. Jennifer é genial quando narra o romance através de capítulos que mais parecem contos, visto que, em cada um, se enxerga o ponto de vista de um personagem diferente. Cada capítulo é apresentado de uma forma, já que existem “contos” que aparecem em terceira pessoa, outros em primeira pessoa, outros parecem reportagens jornalísticas, etc. A ousadia estilística é arrebatadora.

 

9) Harry Potter e o Cálice de Fogo, J.K. Rowling

Tinha que ter livro da minha infância/adolescência e escolhi este porque é, de longe, o meu preferido da série de obras do bruxo. Os mistérios e as reviravoltas são tantos que me foi impossível desgrudar do livro na época que o li pela primeira vez. Tanto que só fui terminá-lo em uma festa, dando uma de mal educado por estar enfurnado em um canto com um livro grosso desses. J.K. Rowling já me deu muitas felicidades quando eu era criança.

 

10) Crime e Castigo, Fiódor Dostoievski

Foi um livro que me surpreendeu muito. Embora eu tenha me confundido inicialmente com o amontoado de nomes e apelidos de personagens, foi uma leitura rápida e incansável. Os personagens intrigantes e os questionamentos do protagonista assombram. No fim, é um grande romance dramático, talvez até demais. De certa forma, percebi que os dramalhões podem render livros originais e complexos, como ocorreu aqui.

 

Embora alguns discordem sobre a qualidade e o valor dos livros que expus acima, posso afirmar que muitas obras ficaram de fora, já que tive que me concentrar apenas em dez. De qualquer modo, nem sempre os livros mais marcantes são os melhores. O que é levado em consideração é o momento em que lemos as obras, o que sentimos, pensamos, em qual idade estávamos, etc.

As leituras prosseguem, já que o amor pela literatura é infinito. Enquanto isso, novas listas podem ser formadas, a depender do nosso momento de vida e das obras que encontramos pelo caminho. Ainda assim, mesmo alterando nossas preferências, nunca esquecemos os livros que nos marcaram, já que estes fazem parte da nossa memória e, às vezes, do nosso coração.

Agora que eu comecei o jogo, o desafio está lançado. E aí, leitor, quais obras te marcaram?

 

Obs: Sei que esse post não vai ter comentários de leitores porque... bem, não tenho muitos deles. Ainda assim, achei divertido lançar o desafio a quem quiser e puder participar.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 17h12
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Bancando o Detetive

Sempre tive implicância com o Sherlock Holmes. Sua arguta percepção da cena do crime e sua inteligência extraordinária eram constantemente vistas por mim com desconforto. Ainda que saiba que um livro ou um filme de suspense sejam obra de ficção, quero sempre bancar o investigador, tentar solucionar o crime junto com os personagens, ainda que tudo faça parte de uma obra literária.

Talvez por isso invista pouco nos livros e filmes policiais, dado que, na maioria das vezes, os autores/cineastas preferem criar investigadores perfeitos, aptos a tirar conclusões absurdas diante de evidências comuns.

Por conta disso, foi grande a minha surpresa quando me deparei com a excelente série americana “The Killing”, adaptada de um seriado dinamarquês. Na primeira temporada, acompanhamos os detetives Sarah Linden e Stephen Holden em busca do assassino de Rose Larsen, uma adolescente encontrada morta no porta-malas de um carro.

Se nas outras séries policiais, o caso é resolvido por mágica, perícia e investigadores geniais, em “The Killing” tudo é tentativa e erro. Os policiais tateiam nas pistas, chegam a conclusões precipitadas e falham como qualquer humano.

Sarah Linden, vivida pela ótima Mireille Enos, possui um olhar que mistura dor e ódio, sendo obcecada em resolver seus casos, ainda que, para tanto, tenha que atropelar as pessoas que a amam. Holder (Joel Kinnaman), por outro lado, vive com a insegurança de ser novo na carreira e de ter de escapar do seu vício em drogas.

Ambos são imperfeitos o suficiente para tropeçar, e, ainda assim, tentarem o máximo para achar os assassinos que pipocam na série.

Aliás, tudo no seriado é cinza e azulado, a começar pelo céu de Seattle, onde vivem Linden e Holder. Os personagens são dúbios e tristes, além de guardaram segredos terríveis.

Como espectador, confesso que viciei. E, em muitas ocasiões, me peguei tentando desvendar pistas e adiantar as cenas seguintes, sempre buscando adivinhar o assassino.

Em todas as oportunidades o seriado me passou para trás. Sempre com reviravoltas verossímeis e com personagens duvidosos, tive o prazer de ser enganado pelos roteiristas com estilo e sagacidade.

Assisti as quatro temporadas no Netflix sedento por respostas, me deixando levar pela mesma obsessão que costumava conduzir Linden naqueles crimes cruéis.

De alguma forma, “The Killing” me fez lembrar dos primeiros livros que li, ainda quando criança. Foram as obras de Marcos Rey e de outros que me fizeram atacar os primeiros livros da vida, movido pelo prazer sedento de desvendar os mistérios em que os autores me metiam.

Ainda hoje devo muito àquelas obras. “O Rapto do Garoto de Ouro”, “Escaravelho do Diabo” e “O Mistério dos Cinco Estrelas” - só para citar alguns - foram a minha iniciação na literatura do prazer. Foram estes pequenos mistérios que me fizeram querer ler.

E se hoje enfrento os Machados e os Dostoiévski, é porque eu aprendi a gostar de ler com aqueles livretos infanto-juvenis da Série Vaga-Lume da Editora Ática, que não me deixavam fazer outra coisa senão desvendar os mistérios página a página.

“The Killing”, muito mais adulto e profundo do que os livros do Marcos Rey, me lembrou do prazer do entretenimento. Me fez recordar como é gratificante ver uma trama bem escrita, e do júbilo de desvendar o suspense pouco a pouco.

Com Sarah Linden, Stephen Holden e, até mesmo, com Marcos Rey, eu fui detetive. E isso só me fez lembrar como é hipnótico se deixar levar por uma boa história.

 

Obs: Estou tristíssimo pelo fim de “The Killing”. A série merecia mais e mais temporadas. Sentirei saudade de Linden e Holder!

 

 



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h28
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Se Eu Pudesse

Eu queria...

 acordar sem despertador num dia de silêncio

 cantar sem vergonha nos momentos intimistas

 me perder em viagens pelos lugares mais distantes

 ouvir Tom Jobim quando estou no ônibus

         escrever livros com a desenvoltura de antes

 morar defronte a praia e sentir a maresia da varanda

 fazer as pazes com Santo Antônio

 viver num musical de comédia

         cozinhar com a facilidade da Rita Lobo

        “querer” estudar com concentração de monge

        carregar minha família e amigos no bolso

        ter um quadro com a letra de “Caçador de Mim”

        conquistar mais leitores

        chamar um concurso de meu

        aprender a amar cegamente a minha profissão

        marcar as pessoas que me rodeiam

        música pra dançar aos sábados

        vinhos para as noites frias

        pensamentos brancos

       E paz interior    

 

            



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h18
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Um Padrinho Desajeitado

 


           O convite para padrinho veio numa sacola que tinha uma flor verde. Havia passado um pouco do meu aniversário, mas a Yasmin havia me prometido um presente, de modo que acreditava que agora ela pagava a promessa.

            A sacola continha um porta-retrato com a nossa foto na festa de formatura dela. Ela, fazendo biquinho de beijo pra câmera, e eu com um sorriso de embriagado. Agradeci o agrado e já ia pondo a fotografia de volta na sacola, quando Yasmin disse que havia um bilhete ainda.

            Mas você quer que eu leia agora?, indaguei surpreso, na minha ignorância de quem pressupõe que todos são envergonhados como eu. Ela fez que sim e eu tirei a carta, pondo-me a ler ali mesmo.

            Era um recado curto em um papel desenhado de flores, onde se lia: “Você esteve ao meu lado em momentos muitos especiais da minha vida... mas o melhor ainda está por vir. Por isso gostaria de te ter ao meu lado em mais um desses momentos: Você aceita ser meu padrinho?”

            Eu recebi a pergunta com surpresa, de modo que fiquei boquiaberto ainda uns segundos pensando se a indagação no papel era séria de fato. Ela elogiou a velocidade da leitura e aguardou minha resposta com aparente ansiedade.

            Foi aí que quebrei o momento com um dos meus momentos neuróticos, perguntando: Mas eu nem conheço o noivo direito. Você não acha que vai pegar mal?

            Yasmin fez como se não tivesse ouvido direito, explicando de modo professoral que existem padrinhos do noivo e da noiva. E só então, com tal elucidação tão óbvia, que pude retornar a sanidade, curtir o momento e abraçá-la antes de dizer um retumbante sim.

*

            Ainda hoje me culpo por pensar que Yasmin ache que eu não tenha adorado o convite. Eu adorei, mais do que poderia exprimir neste post.

            Costumo reagir com surpresa quando recebo grandes declarações de amor. Sim, existe amor na amizade e foi com ele que Yasmin me brindou com o convite pra padrinho do seu casamento.

            É comum sentirmos fortes sentimentos pelos nossos amigos de anos, de modo que poder contar com eles se torna algo corriqueiro no dia a dia. E sobram mensagens de texto, Facebook, Whattsapp e algumas ligações.

            É raro, porém, quando temos a chance de mostrar o quão preciosos nossos amigos são para nós. De alguma forma, espero que todo o meu amor por eles fique subtendido pelos meus gestos, palavras e (pequenas) atenções recorrentes.

            Ainda assim, fico surpreso quando algum amigo demonstra o carinho que eles me dedicam. Yasmin sempre foi mestra em me mostrar, através de pequenas atitudes, o quanto nossa amizade lhe é valiosa.

O convite pra eu ser seu padrinho apenas coroou uma amizade que já rendeu muitas felicidades a mim. É uma honra poder ser parte de um momento tão importante de alguém quanto um casamento, ainda mais vindo de uma amiga que amo tanto.

E mesmo Yasmin me fazendo procurar um suspensório (pro uniforme de padrinho) e de me fazer viajar alguns quilômetros até Tirandentes (onde o casório ocorreu), tudo valeu a pena, pois estive em seu casamento como num gesto de amor, pra demonstrar o quanto a amizade dela é essencial na minha vida.

*

Os padrinhos, a quem eu desconhecia em sua totalidade, inventaram de entrar de mãos dadas na cerimônia de casamento, no melhor estilo “praia-e-bola”, segundo disseram. Como eu estava nadando conforme a maré, aceitei de bom grado quando me puxaram e fomos entrando enquanto os demais convidados nos recebiam com risos e aplausos.

Achilles, o noivo, gostou bastante da ideia e veio puxar o nosso bando, que logo se sentou em uns bancos de madeira, postos no gramado do hotel.

O cenário não poderia ser mais belo. O sol ia se pondo atrás dos morros de Tiradentes, deixando raios alaranjados no céu roxo.

O casal de cantores começou a tocar “De Janeiro a Janeiro” quando Yasmin adentrou no corredor cercado de convidados. Muitas cabeças nos separavam, de modo que não consegui visualizá-la de onde eu estava.

Achilles ficou vermelho e lágrimas brotaram dos seus olhos. Golpe baixo. Logo vi vários convidados secando os olhos. Uma madrinha chorona, que estava na ponta, pediu para trocar de lado com outra só porque ameaçava irromper num berreiro. Eu me concentrei bravamente para não marejar, olhando pro alto de vez em vez.

E no meio disso tudo, eu finalmente consegui ver Yasmin. Ela veio sorridente e estava tão, tão, tão linda que a emoção de Achilles se explicou por si só.

Em breve o padre começou o sermão.

Alguns metros ao lado dos noivos, numa placa de madeira cercada de flores brancas, lia-se: Até a eternidade.

 

Obs: Querido leitor, como estou enferrujado! Minha vida de blogueiro parece que foi há milênios e sinto minha escrita lenta, atravancada e pobre.

Obs2: Yasmin e Achilles, eu só desejo o melhor pra vocês, sempre! O casal mais apaixonado, harmônico e feliz que tive o prazer de ver. Foi uma honra ser convidado VIP do casamento de vocês e de presenciar o amor maior tão de perto. Parabéns e obrigado por tudo!



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 21h42
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Fé, Noé e Outras Rimas Religiosas

         

          

Ontem ganhei uma folga inesperada e fui ao cinema assistir a “Noé”, do diretor Darren Aronofsky, o mesmo de “O Cisne Negro”. Como esperava, não me decepcionei com a fotografia e com os efeitos visuais deslumbrantes, sem esquecer das cenas emocionantes do longa.

 

Tentando humanizar Noé (vivido pelo ótimo Russel Crowe), os roteiristas incutem nos demais personagens questões que o público também partilha, tais como: Será que absolutamente toda a humanidade é ruim a ponto de ser sacrificada? Será que não é importante a misericórdia? Tais questionamentos perpassam as atitudes de toda a família de Noé, de modo que se discute a justiça daquela chuva que purifica o mundo.

          

Assistindo ao filme, me recordei do assombro que eu sentia quando minha mãe lia para mim uma Bíblia para crianças que ainda existe aqui em casa. Sentia certo temor desse Deus desconhecido, que era capaz de mandar alguém matar os próprios filhos e de expulsar Adão e Eva do paraíso sem misericórdia.

 

 

Ainda bem que existia o “Novo Testamento” para aplacar meu coração, com um Deus bondoso. Ainda hoje lembro de muitas passagens lidas por minha mãe e repetidas por catequistas nas minhas épocas de Primeira Comunhão e Crisma.  

 

Hoje, com mais maturidade, entendo que o Antigo Testamento, ao invés de ser lido ao pé da letra, merece uma leitura mais generosa e interpretativa. São, a meu ver, lendas e mitos revestidos de metáforas para que possamos interpretá-los de coração aberto.

 

 

Após assistir ao filme “Noé”, saí do cinema com uma sensação boa de ter tido um bom entretenimento. Porém, embora eu tenha embarcado nos questionamentos interessantes que o diretor e roteiristas propõem, acredito que a história bíblica quer dizer mais do que se limita o longa.

 

 

Penso que o mito do Noé queira fazer menção a possibilidade de mudança. Quando tudo é escuro e mau e terrível, ainda assim podemos escolher recomeçar. Simplesmente recolher o que há de melhor em nós e largar os vícios, começando de novo.

 

 

E não é preciso chuva física para tanto. O dilúvio deve vir de dentro de nós, da nossa vontade. Aí sim o que há de ruim vai ser deixado pra trás e poderemos começar do zero. Como dizia Chico Xavier: “Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo. Mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim”. (sei que citações são bregas, mas esta é tão bonita e verdadeira)  

 

*

 

Outro dia estava conversando com uma amiga concurseira que, mal ou bem, está passando pelos mesmos dilemas que eu. Contudo, ela, ao contrário de mim, sempre foi uma pessoa de muita fé.

 

 

Quando eu estava desanimado com minhas perspectivas, ela me contou que confia em Deus para guiá-la pelo melhor caminho e que estava fazendo sua parte ao se dedicar ao máximo ao seu objetivo. Disse que rezava para que Deus a indicasse o que fazer a seguir e que nunca estava sozinha porque sabia que nada era em vão.

 

 

Estranhamente, ela tinha uma confiança que vinha se refletindo nas provas. Junto aos estudos, a fé dela vinha gerando notas cada vez melhores e ela achava que Deus estava por trás de tudo.

 

 

Confesso que fiquei um tanto impressionado pelo olhar esperançoso que ela tem da vida, sem esquecer do seu discurso motivacional que enternecia até o meu coração desacreditado.

   

Por alguns minutos, quis ser como ela: ter esta fé que domina tudo e transforma. E embora eu reze (às vezes) e tente pôr em prática alguns ensinamentos aprendidos nas antigas aulas de Crisma, não consigo acreditar tanto quanto gostaria.

 

 

Às vezes penso que quero acreditar mais do que acredito efetivamente, e isto me gera uma culpa que consome meus pensamentos por um bom tempo.

 

 

Em um filme que assisti há anos, um personagem diz que a fé é como um copo de leite. Na infância, o leite é cheio até a borda. No entanto, quanto mais crescemos, o copo vai aumentando e aumentando, de modo que aquele líquido de antes já não preenche o copo como outrora. Temos, então, que buscar novos mecanismos e pensamentos para fortalecer a fé.

 

 

Para mim, a fé se confunde com esperança e por isso sigo querendo acreditar com tanto fervor que às vezes me convenço. E acho sinais onde pode haver tão somente coincidências.

 

 

Meu copo de leite pode não estar cheio, mas penso que, ainda assim, é o suficiente para continuar rezando para tudo dar certo.

 

Obs: Mais um post fraquinho, eu sei. Mas é post de saudade apertada, de modo que peço o perdão do leitor.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 16h17
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Pequenas Felicidades

Fecha os olhos e pensa num momento feliz. Não necessariamente um momento que aconteceu: não precisa ser passado. Pode ser até futuro. Uma imagem que fica repetindo na sua cabeça, como um desejo que mora dentro da gente.

Pensou?

 

Eu me vejo num restaurante. Ou num bar, não sei bem. Beberico vinho numa taça grande, oval, enquanto olho pro mar. A janela do lugar é imensa, e ocupa praticamente a parede inteira. Parece um quadro. Dá pra ver a praia quase vazia, e o mar negro iluminado pela lua. Ao longe, alguém toca Tom Jobim no piano. E eu não tenho vontade de sair dali nunca mais.

 

Uma poltrona confortável e uma luminária moderna que cai como um gancho no canto da biblioteca. Um papel de parede listrado se destacando em um quarto com móveis retrô. Uma comida sofisticada saindo do forno. O interfone toca: eles chegaram. Eu destranco a porta do apartamento e a deixo semi-aberta. Jamie Cullum canta ao fundo. Ou Norah Jones. Ainda não decidi qual dos dois.

 

Eu de terno escuro. Estou numa sala, suando demais por baixo do cobertor que é o terno. Acabei de fazer a prova oral e acho que talvez tenham me odiado. Dei respostas rasas, tentei fazer piadas num momento tão sério. Não consigo ficar parado, rodeando o cômodo como um descontrolado. Uma mulher entra e diz: O resultado vai sair agora. Eu ando, saio da sala, mas não consigo entrar no auditório onde eles vão dar as notas. E se me reprovaram? Estaciono na porta, enquanto os outros entram. Espero o momento em que ficarei reprovado e terei que sair correndo, fugido. Os examinadores começam a ler as notas. Eu fecho os olhos, tentando apelar pra Deus. Pedro Henrique, eles falam. Eu me arrepio ao ouvir as notas e depois fujo. Corro pro banheiro e choro, como um idiota. Mentalmente eu agradeço, agradeço tanto a todo mundo. Eu passei.

*

 

Eu já tive mais sonhos, sabia? Mais grandiosos, confesso. Por algum motivo, achei que estivesse destinado a grandes feitos. Não por ser especial, mas por querer fazer a diferença pra alguém.

Aos poucos, fui me desiludindo com a calmaria da vida e com as pequenas limitações que a nossa mente nos impõe. Não dá pra ser tudo o tempo todo. Vou com calma. Um passo de cada vez, sem grandes expectativas.

Eu continuo sonhando. Alto. Mas já não carrego aquele anseio juvenil de querer ser extraordinário. Ou de desejar carregar o mundo debaixo dos braços.

Hoje em dia eu me permito a surpresa. Não sonho com tanta freqüência com a felicidade suprema ou com grandes e épicas cenas. Sonho com a paz e com a alegria cotidiana.

Quero aprender ver a beleza das pequenas coisas. Talvez a verdadeira felicidade seja exatamente esta: ver o extraordinário nos detalhes que tantas vezes passam despercebidos.

 

*

Leitor, meu amigo, quanto tempo. O post não ficou nenhuma maravilha, mas tente entender. Eu já perdi a prática de conversar com você. Mas quis te visitar porque estava com saudades.



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 21h30
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Sobre Natal e Ano Novo

Eu costumava ser uma pessoa mais afetuosa. Mas os anos vão me dando um peso que não reconheço de onde vem ou se vai embora um dia. Antigamente, eu mandava emails para a maioria dos meus amigos no Natal e mostrava o quanto me importava com cada um. Hoje, sinto como se não tivesse mais o tempo ou a paciência para elaborar dezenas de recados diversos.

E, ainda que tenha enviado tais recados durante anos, estranhamente não me mandaram nenhuma mensagem de Natal neste ano. (Não é bizarro como somos apagados quando não lembramos os outros que estamos aqui?) Fico imaginando se a minha falta de entusiasmo é uma crise geral ou se, realmente, as pessoas não se importam com estas bobagens.

Fico preocupado se estou envelhecendo rápido demais. Alterno com rapidez irritação, emotividade e exaustão. O Grilo Falante reclama comigo e joga fumaça de seu cigarro no meu rosto com excessiva freqüência. Quem é esse Pedro que desconheço?

*

Não gosto mais de Natal como costumava, mas confesso que ainda me surpreendo com as mensagens de amor que as pessoas trocam. Hoje, no Facebook, li vários recados entre amigos felicitando uns aos outros e agradecendo pelas alegrias partilhadas em 2013. Acho bonito que, ao menos nesta época, as pessoas se entreguem a estes nobres sentimentos e reconheçam aqueles que os acompanharam durante o ano.

Do mesmo modo, gosto da minha casa lotada de parentes e de comida boa. Gosto até mesmo das piadas sem graças do meu pai, da polêmica se peru é mais gostoso que Chester e do CD da Simone torturando os ouvidos de todo mundo. Gosto das camas improvisadas no chão e da conversa que dura um tempão depois da meia noite. Gosto do latido dos cachorros com os fogos que pipocam.

É estranho, mas gosto de Natal. Sei que um dia vou lembrar desta época e ficarei com saudades da minha casa cheia dos meus pais, irmão e tios. Um dia eles irão embora e eu ficarei, nostálgico, tentando lembrar de tudo, de cada detalhezinho. Me imagino com os olhos marejados e com o pisca-pisca da árvore de Natal colorindo a taça de champanhe que seguro.

Natal é noite feliz. (Aliás, tem música mais triste que “Noite feliz”?)

*

Neste ano, senti falta das emissoras transmitirem “Um Herói de Brinquedo” e “Esqueceram de Mim”, dois clássicos de Natal. Pode isso, Arnaldo? O Macaulay Culkin torturando bandidos é uma imagem que me liga diretamente a infância. E ao Natal, lógico.

*

Eu lembro com perfeição do meu ano novo de 2012. Recordo das minhas férias de Cabo Frio e de alguns percalços de 2013. Como pode um ano correr tanto? Sinto como se 2013 fosse um buraco negro da minha vida e eu tivesse entrado nele em janeiro e só saído em dezembro. Como cheguei aqui tão rápido e sem nada para contar de bom? Foi um ano vazio. Que isso não se repita em 2014.

*

Sempre tenho pedidos e mais pedidos para lotar a caixa de entrada de Deus quando chega o réveillon. E como (quase) nunca tenho meus desejos atendidos, desta vez decidi contar com o improviso Dele.

Isso mesmo. Quando os fogos colorirem o céu, quando o relógio marcar meia noite, eu manterei minha cabeça em branco. Não pedirei nada. Que o meu Destino se encarregue de me levar à felicidade.

Não sei se dará certo, mas às vezes é bom se deixar levar (pois estou cansado demais para pensar). Então é isso: em 2014, vou me deixar levar. E que seja o que Deus quiser.

 



Escrito por Pedro Henrique Gomes às 00h46
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